
O tempo no Rio continua invernal. A sensação térmica deve estar em torno de 12º C, céu carregado e chuvas esparsas. Parece que estou na serra gaúcha, o que de certa forma desperta uma pequena saudade daquela paisagem e também uma saudade do pampa, de onde sou nativo.
Aqui no Rio não cultivo muito o hábito de tomar chimarrão, mas certamente estaria mateando se estivesse no Sul. Esse tempo feio inibiu minhas pedaladas, coisa que faço quase diariamente. Aliás só saio de carro à noite ou quando tenho que fazer algo além túneis (Rebouças ou Zuzu Angel). De resto, resolvo quase tudo de bicicleta, o que é mais saudável, contribui para desafogar o trânsito e diminui minha parte nas emissões de CO2.
Acho que as pessoas que não se adequam ao transporte coletivo deveriam tentar desenvolver esse hábito, como acontece na Holanda e outros lugares onde essa consciência é mais desenvolvida. Mas não bastam as ações individuais, também temos que agir coletivamente exigindo transporte público digno e mais barato.
Foi um absurdo o que aconteceu em São Paulo: no dia programado para que as pessoas deixassem o carro em casa, houve um dos maiores congestionamentos da história da cidade. Isso fez lembrar de um livro de Inácio Loyola Brandão, Não Verás País Nenhum, de 1981, um romance fantástico, impactante e de difícil digestão, que projetava o Brasil num futuro não muito distante em que todas as bolhas pareciam ter estourado: a falta de recursos naturais, a explosão demográfica, a falência do sistema financeiro, a escassez de água potável, a mutação genética, a perda da identidade individual, entre outras conseqüências do mau uso que fizemos do que nos foi disponibilizado nesse planeta para cumprirmos nossa evolução.
Em seu livro, Loyola Brandão descrevia o dia do GRANDE ENGARRAFAMENTO (grafado em maiúsculo), em que os automóveis, tomando todos os espaços das vias, formariam um gigakilométrico comboio, irrecuperavelmente estático. Os proprietários dos carros relutariam em abandoná-los, mas por fim o fariam, ao cabo de algumas horas, dias ou semanas, conforme a sua capacidade de desapego. E esses veículos, após sofrerem inevitáveis depredações formariam um imenso museu a céu aberto. Uma gigantesca instalação da além pós modernidade, de alto poder reflexivo.
Preciso dizer que não sou um cara fatalista e assim como Caetano em sua canção Fora da Ordem, eu também acredito em várias harmonias bonitas possíveis sem juízo final. Mas que tomamos um rumo errado, isso tomamos.
Nunca gostei muito da idéia de luta de classes, pois sempre preferi acreditar na união das classes e sempre pensei que o bom combate deve ser feito com solidariedade e respeito ao outro. Mas as diferenças sociais chegaram a um nível absurdo, insustentável, que acabou dando espaço aos poderes paralelos e milícias que vemos expandir-se nas favelas e periferias do mundo.
Diz-se que o lema da Revolução Francesa deveria ser, a princípio, Fraternité, Égalité, Liberté e não Liberté, Égalité, Fraternité, como acabou consagrado. Qual a diferença? É colocar a Fraternidade na frente, na base, pois sem ela não pode haver nem igualdade nem liberdade verdadeiramente conseqüentes. Ser fraterno implica em tratar alguém como irmão, de igual para igual. Não igual por não possuir identidade própria, mas sim por gozar dos mesmos direitos, condições e perspectivas. Ao nos sabermos iguais, poderemos finalmente ser livres, pois nossa liberdade não afetará em nenhum aspecto a liberdade do outro.
A liberdade, colocada como foi no princípio do lema, pode levar a vários desdobramentos não necessariamente igualitários nem fraternos. A serviço das paixões mesquinhas e do egoísmo pode ter conseqüências desatrosas.
Sempre sinto calafrios quando nos filmes americanos algum personagem solta a célebre frase:
- This country is free! ,como uma apologia às liberdades internas daquele país em contraponto a outros países onde essa liberdade não é encontrada. Essa frase era mais típica na época da guerra fria e era uma forma subliminar de desqualificar os estados totalitários da União Soviética, de Cuba e de outros países com governos de inspiração socialista.
Na verdade sempre fui adepto do caráter fraterno e igualitário que estava no cerne das manifestações que originaram as transformações dessas sociedades, mas isso também não seria suficiente, como de fato não foi, se entre as conseqüências dessas transformações e no ápice delas não se encontrasse a liberdade. Por isso, embora eu tenha um espírito cuja expressão política mais aproximada é o socialismo, sempre fiquei com um pé atrás com os mencionados governos do socialismo real pois que, ao tornarem-se totalitários, confiscaram a seus cidadãos suas possibilidades de pensar e agir livremente. O que eu sinto, no fundo, é que até hoje não tivemos, nessa breve história da nossa civilização, uma organização política que atendesse a todas necessidades do ser humano.
Talvez a emergência dos fatos desperte-nos um inquebrantável desejo de harmonia que nos impulsione a conduzir a história para um ponto ideal num futuro próximo. É isso ou a barbárie.
Ainda sobre a liberdade dos americanos, se é que ela pousa suas asas sobre todos que vivem naquele país, a sua conta muitas vezes foi e ainda é paga com a opressão de outros povos, invariavelmente com níveis inferiores de desenvolvimento. E essa liberdade sem fraternidade e igualdade, no que diz respeito à economia, erigiu um mundo globalizado fragilmente sustentado sobre os alicerces dos livres mercados, totalmente autônomos, sem regulamentação, ou regulados de forma parcial, seguindo a ótica da especulação, da exploração e da cobiça, sem levar em conta as necessidades verdadeiramente globais dos seres que habitam os 510 milhões de km2 a que estamos confinados nesse recanto do Universo.
Pois esse desenfreado liberalismo, com o capital financeiro ao volante, agora clama por uma intervenção do Estado, do funesto estado americano para resgatar papéis podres, que foram fonte do lucro ilícito de especuladores mundiais sem o menor escrúpulo. Não deixa de ser um contrasenso, e, perdão pelo lugar comum, uma ironia do destino, que os poderosos defensores e grandes beneficiários do fundamentalismo de livre mercado, instalados em Wall Street, dependam hoje de uma cirurgia estatal para garantir sua sobrevida.
Comecei esse papo com um passeio de bicicleta e acabei nessa conversa que está nos noticiários do mundo inteiro. Mas é fato que não podemos flanar pelo mundo como se essas coisas não estivessem acontecendo. Isso me fez lembrar uma música feita em parceria com Ana Carolina, Nada Te Faltará, que clama pela fraternidade:
peço paz aos filhos de Abraão
quero Gandhi na melhor versão
e nada vai me faltar
e nada te faltará.
Realmente é isso que desejo, que nada falte a ninguém, que todos tenhamos acesso a tudo.
Utópico?
Pode ser, mas no terreno da canção tudo é possível.
E se as canções têm o poder de colocar as pessoas em um estado vibratório positivo, certamente bons pensamentos e ações corretas podem contribuir para um mundo melhor.
Estava pensando em falar ainda sobre alimento orgânico, reciclagem e outros assuntos relativos que fazem parte de minhas preocupações, mas já me sinto muito extensivo hoje e por isso deixarei para um futuro post.
Encerramos a temporada do Além do Paraíso no Hideaway nessa quinta. Foi o melhor dia, pois naturalmente o show cresceu, ficou ainda mais dançante e foi uma delícia ver as pessoas se divertindo ali na frente, num clima muito alegre e amoroso. Nós no palco também nos divertimos muito, todo mundo mandou ver!
Em breve, acho que ainda em outubro, voltaremos em algum outro lugar do Rio. E deve rolar também em São Paulo e Porto Alegre em novembro.
Muito obrigado a todo mundo que foi ao show e a todos que têm vindo aqui. Li todos os comentários com muita atenção, alguns mais de uma vez, mas como falou a Paula Estrela eu teria que morar na frente do computador se quisesse responder a todo mundo.
Amanhã vou adicionar algumas fotos do show, hoje deixo essas imagens do Rio nublado e chuvoso, que foram inspiradoras, afinal deram start aos meus escritos do dia.
Essa semana vou concluir em estúdio a canção Além do Paraíso e começar as bases de novas músicas, Odisséia, que abre o show, Velas Pra Todos os Santos (uma milonga altamente dançante), Aqui (que resolvemos colocar no disco) e alguns sambas.
Assim que souber quando e onde serão os shows vocês serão os primeiros a saber.
Boas vibes a todos.