sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

DISCO E PROJETO CANTAUTOR





Tenho andado afastado aqui da Câmera. Os trabalhos realativos à produção de meu disco e a realização de Festival Cantautor no Cinemathèque estão  absorvendo quase todo meu tempo. Quase não tenho pedalado, quase não tenho lido, mas tenho me valido do Facebook e Twitter para a troca de informações, por serem esses dois meios as formas mais instantâneas de interatividade na rede. 

Em consideração aos meus leitores que não circulam por nenhum desses dois mencionados portais, vou aproveitar um tempinho que tenho agora livre para dar um apanhado de tudo o que está rolando.




O DISCO

Ainda sem nome definido, comecei a gravá-lo no dia 4 de janeiro no estúdio da gravadora Biscoito Fino, recomeçando quase do zero esse trabalho que já estava avançado em outro formato.



Explico. Eu vinha produzindo por conta própria algumas canções que fariam parte de meu álbum novo. Fazia isso enquanto me envolvia em diversos outros projetos. Havia tomado como base para o disco o grupo que me acompanhou na tourné Além do Paraíso que realizei em 2008. Esse seria o título do disco. Já tinha umas 10 bases gravadas e algumas canções que havia finalizado coloquei no meu site oficial e no myspace.



Um dia, Joana Hime, filha de Francis e Olívia Hime, e que é uma das gerentes de produto da gravadora, depois de ouvir as canções que eu havia publicado em meus sites me escreveu: "vamos abiscoitar isso tudo?" . Achei aquilo muito simpático. Em 2006 ia lançar meu DVD/CD Sinal dos Tempos pela Biscoito, estava para assinar o contrato, quando, na véspera conheci Roberto Carlos num jantar na casa de minha amiga Juliana Broto, que vem a ser sobrinha de Maria Rita, inesqueçível amor de Roberto. Fiquei umas 2 horas conversando com o rei. Falei-lhe da minha infância, do meu encantamento da jovem guarda e de minha carreira até chegar ao meu DVD. Roberto contou-me que começara cantando bossa nova acompanhado por João Donato em uma boate de Copacabana. Depois de  mútuas confissões  ele e Juliana me apresentaram a Claudio Condé, então presidente da Warner, que interessou-se em lançar o disco.  Acabei assinando com a Warner que me oferecia, na época, um contrato com melhores possibilidades.



No dia seguinte levei flores para Joana e duas garrafas de um um vinho maravilhoso da região de Bandol na França para Kati Almeida Braga (dona da Biscoito Fino) e Olívia Hime a diretora artística. Agora retorno à casa, ou melhor, finalmente entro para o seu cast, num momento excelente de minha carreira o que será bom para todo mundo.



Joana e eu começamos então a falar a respeito do disco. A princípio eu iria aproveitar o que já estava pronto e finalizar as músicas já começadas. Quando fechamos o contrato eu comecei a pensar o disco de uma forma diferente. Eu estava achando muito pop o que já tinha gravado e estava pensando em aproveitar as condições que a Biscoito me dava pra dar uma mexida geral e levar o conceito do disco para uma estética mais brasileira e mais acústica. Para se ter uma idéia a música Além do Paraíso nem estea mais no repertório.




 Chamei Torcuato Mariano para produzir comigo. De Paris veio o percussionista Jorge Bezerra Jr, que fora integrante da banda de Joe Zawinul (um dos maiores músicos desse planeta) e que havia me acompanhado em Paris no começo de 2009. A princípio pensava em fazer o disco tendo como base um trio com baixo, percussão e eu nos violões. 



Para completar esse trio, chamei o baixista Sérgio Brandão, que, há cerca de 20 anos mora em Nova Iorque e domina muito bem o rabecão acústico.



Quando começamos as gravações o disco foi tomando outros rumos, adquirindo outra sonoridade imprevista. Torcuato Mariano é um excelente músico, compositor, violonista e guitarrista, já foi proprietário de estúdio, foi executido de grandes gravadoras e produziu muita gente do pop, do rock, da MPB, do pagode, do sertanejo, do axé. Enfim um cara com muita experiência, com muito domínio de estúdio e que compreende e admira muito o meu trabalho. Foi uma excelente soma, tirou-me o peso de algumas decisões trazendo, de fora, uma visão
que foi fundamental para o novo direcionamento do trabalho.





Jorge Bezerra gravou 6 bases e voltou para Paris. Chamamos  Marcos Suzano para gravar outras 5. A 12ª música a princípio não teria sessão ritmica, mas contaria com orquestra, piano e violão. Brandão arrasou no seu trabalho, complementando magistralmente o trabalho dos dois percussionistas. Bezerra espontâneo, emocional, Suzano perfeccionista, criativo e disciplinado, obtendo resultados com muita eficácia e em rápido tempo.





Convidei Eduardo Neves para fazer o arranjo de sopros de duas músicas: Felicidade do Lupicínio Rodrigues (única que não assino no repertório) e Recomeço, uma das inéditas que mais gosto do repertório. Os arranjos de Edu ficaram algo de uma beleza extrema, além de apresentarem uma personalidade muito forte, como se fossem uma releitura de uma sonoridade inserida em parte no universo das gafieiras dos anos 50, em parte ao mundo fonográfico do começo dos 70.



Esses dois arranjos levaram nossa proa em uma nova direção antes não pensada. E passamos a nortear os timbres das outras músicas levando em conta aqueles arranjos. Ou seja, o trabalho de Edu produziu, além de um resultado musical, um efeito artístico, na melhor acepção desse termo, ajudando a conceituar a totalidade daquilo que vínhamos produzindo.





E nos levou a chamar Paulinho Braga para gravar bateria em quatro músicas, incluindo a que não teria sessão rítmica. O disco foi ganhando qualidade com cellos solos e dobrados de Jaques Morelenbaum, harmônica de Gabriel Grossi, pianos de David Feldman,  violões incríveis de Daniel Santiago (um de meus músicos favoritos) e de Torcuato que fez solo espanholado em El Guion e fez uma excelente lapsteal guitar em Ouro dobrando vozes com o violinista Nicolas Krassik que também fez solo na música.





Maria Gadu fez duo comigo em Recomeço. Comecei essa música para Maria gravar no seu primeiro disco. A canção marcava minha separação, tinha um conteúdo emocional importante para mim, demorei para finalizá-la e acabou não entrando no disco de Gadu. Mas eu sempre continuava ouvindo os acentos dela nas frases da canção. Não resisti e a chamei. Ficou linda e fez jus à sua gênese. 



Gadu além de ser uma artista maravilhosa, cantando de um jeito genuíno, com uma assinatura inconfundível e de escrever canções ao mesmo tempo populares e de grande profundidade ee uma pessoa doce, cooperativa, que quer ver as coisas darem certo. Sabe pedir licença e agradecer e por isso também o Universo lhe é tão generoso.



Outras coisas boas ainda devem acontecer durante as gravações que foram estendidas até o dia 7 de fevereiro.

FESTIVAL CANTAUTOR



No ano de 2003, uma música de tonalidade folk ganhou as rádios do mundo inteiro na voz de Norah Jones. Comprei o disco que lançava a cantora em Los Angeles e ele tornou-se uma de minhas trilhas sonoras enquanto  rodava pelas estradas da Califórnia, indo de um estúdio a outro em trabalhos de composição com músicos de lá. Um tempo depois Norah veio ao Brasil e assisti ao seu show em Porto Alegre, tendo como abertura Jesse Harris, o autor de Don't Know Why, que lhe rendeu o  Grammy de single do ano em 2003, e de outras 4 canções que integravam o repertório do CD. Muita gente ficou inquieta durante a apresentação de Jesse, pois aguardavam a estrela principal da noite. 



Ao ver aquilo, senti uma certa identificação com Jesse, imaginei-me abrindo um show de Ana Carolina, que já gravou 25 canções de minha autoria, num ginásio lotado. Sei que os fãs de Ana também me amam e iam me receber com tapete vermelho, mas também sei a euforia que costuma tomar conta da platéia nos shows de minha amiga. Muita gente ia ficar inquieta, apesar do respeito e admiração que sentem por mim.



Outra coisa que me chamou atenção em Jesse, era o fato dele apresentar-se sozinho com sua guitarra, cantando suas idéias e as coisas do seu coração, como um bardo, um cantador medieval, um homem que corre o mundo dizendo seus textos em forma de música.

No dia seguinte ao do show, encontrei Jesse, Norah e sua banda no aeroporto, eles vindo pro Rio eu indo fazer show em Belo Horizonte. Conversamos, presentei-lhes com um disco meu e seguimos nossos rumos.



Alguns anos depois, meu amigo Mauro Refosco, excelente percussionista que mora em Nova Iorque onde atua com David Byrne e tem uma banda com o genial Thom Yorke, do Radiohead e Flea,  o não menos genial baixista do Red Hot Chilli Pepers, convidou-me para assistir a um show que faria com Jesse Harris no Cinemathèque. Ali retomei minhas primeiras impressões sobre o novaiorquino e veio-me, pela primeira vez a idéia de fazer pelo meu selo uma série que chamaria de Cantautor, jogando o foco justamente nesse tipo de artista.

Ali começamos nossa amizade, que foi reforçada com uma nova vinda de Jesse ao Brasil no ano passado, junto com outro compositor muito talentoso, Richard Julian. Entre praias, baladas na Lapa e saraus compusemos nossa primeira parceria e consolidou-me a idéia de fazer a série Cantautor em que já pensava incluir Márcio Faraco, Gelson Oliveira e outros excelentes artistas daqui e do exterior que ainda não tem uma boa distribuição no Brasil

A partir daquele momento meu tempo foi em parte dedicado à execução dessa idéia.
Finalmente no mês de novembro conseguimos acertar todos os detalhes com os artistas e a Microservice que dsitribui meu selo PIC Music e com ajuda de minha amiga, a produtora Fabiane Pereira, a Morena Coral, marcamos os shows de lançamento no mesmo Cinemathèque que havia me inspirado esse projeto. E Fabi me encaminhou uma outra pessoa sensacional, Ana Paula, que está realizando, ao mesmo tempo, com a  maior competência e no melhor astral possível, as produções do meu disco e do Festival no Cinemathèque .

Ótimo local para lançamentos (foi lá que vi pela primeira vez a Gadu no palco, antes só a via aqui em casa e nos saraus do Dudu Falcão), o Cinemathèque casou perfeitamente com a idéia.

E assim começamos o festival no dia 20 de janeiro com Jesse Harris acompanhado de Mauro Refosco na percussão.

Show execelente, público numeroso e atento. Jesse conquistou até quem não entendia as letras em inglês, ganhou pelo timbre de voz interessante, pela densidade das canções, pela simpatia. Refosco foi um show à parte.



Márcio Faraco, que veio especialmente da França para o lançamento de seu disco Um Rio, que conta com a participação de Milton Nascimento, deu sequência ao festival no dia no dia 27.  Ele é um bom exemplo de que boa música brasileira também se faz fora das fronteiras do país. Gaúcho de Alegrete, passou boa parte de sua vida em Brasília. 

Radicado em Paris desde 1992, Márcio teve seu talento reconhecido já no lançamento de seu primeiro CD, Ciranda, em 2000, na França, com a participação especial de Chico Buarque, na música-titulo. E, por incrível que pareça, sua recente incursão nos ouvidos brasileiros se deu emfrancês: Márcio fez duo com Nana Caymmi na versão francesa de Georges Moustaki para Eu Sei que Vou te Amar, gravada para trilha da novela Beleza Pura, da TV Globo.



Acompanhado de Daniel Santiago no violão, Faraco fez seu show com o Cinemathèque lotado, e se mostrou bom de palco, simpático, divertido e carismático. Contou a origem de algumas músicas com muito bom humor fazendo rir e relaxar o público.




Os duos de violões rolaram muito bem, com frases soando em uníssono ou se complementando. No final a platéia ovacionou de pé, foi reação instantânea e espontânea.



Dia 3 de fevereiro o festival continua com Gelson Oliveira que contará com as participações de Paulo Moura e Marisa Rotenberg.

Gelson é, acima de tudo, um excelente cantor. Começou sua carreira musical aos 14 anos, quando fingia ir dormir e saía pela janela do quarto para cantar em bailes quando morava em Gramado e voltava quietinho pra não acordar seus pais um pouco antes da hora de ir pra escola. Um dia sua mãe o surpreendeu saindo, relutou mas acabou sendo convencida a deixá-lo exercer sua paixão pela música. De crooner, Gelson passou a ser compositor de suas próprias músicas. Achou os termos certos, as notas mais adequadas aos seus sentimentos.



Um dia o saxofonista e clarinetista Paulo Moura, que também é compositor e arranjador, enfim um músico incrível, viu Gelson cantando num festival de cinema de Gramado e o convenceu a vir para o Rio estudar música na Escola Villa Lobos, concedendo-lhe uma bolsa.

Gelson, que não tinha recursos para a passagem, nem mesmo de ônibus, veio de carona, dormindo em rede debaixo de caminhões em postos de gasolina. Mais uma grande aventura em nome da música.



Aqui no Rio ficou na casa de parentes e abriu um leque de amizades no meio musical. Gravou muitos jingles, trabalhou com Ivan e Lucinha Lins, fez a música tema e outras do filme O Sonho Não Acabou de Sérgio Resende. Depois voltou pra Porto Alegre, gravou seu primeiro disco. Foi chamado pra abrir um show de Gilberto Gil no Gigantinho e ganhou o cantautor baiano, que participou de seu disco Imagem das Pedras, assim como Paulo Moura.

Esse disco lhe rendeu o Prêmio Sharp (depois Tim) de Revelação da MPB .

Gelson é um de meus melhores amigos. Uma pessoa que me conhece muito bem.

Foi em sua companhia que fui a primeira vez para a Europa. Ensaimos várias semanas o show Saídas e Bandeiras, que estreou no Teatro d Reitoria da UFRGS em Porto Alegre, em meio de 1994, para um público de 1.600 pessoas. Depois passamos por Floripa, São Paulo antes de embarcarmos para a Bélgica.

Nesse primeiro ano permanecemos 6 meses e realizamos 44 apresentações em cidades da França, Suíça, Italia, Austria e Alemanha.

Voltamos algumas vezes juntos para shows no continente europeu. Outras vezes Gelson foi com sua banda, em duo com o trombonista Julio Rizzo e em shows solo.



Seu mais novo trabalho fonográfico, Tridimensional, que está sendo lancado pelo meu selo, recebeu altos elogios de seu parceiro Gilberto Gil que escreveu um lindo texo que termina assim:

" Agora, Gelson lança mais um disco feito com alguns dos seus incontáveis amigos músicos e admiradores da cena portoalegrense. Mais uma série elegante de suas composições tão sóbrias e vibrantes quanto envolventes e cativantes.
Vai aqui o meu afetuoso entusiasmo para com mais este generoso presente que o meu querido irmão nos regala.”

Quem quiser participar da lista amiga para o show de Gelson, por favor envie os nomes para

apaula2009@hotmail.com

Resumo dessa primeira edição do Cantautor:

20/01 – o americano Jesse Harris
27/01 – o gaúcho residente na França, Márcio Faraco
03/02 – outro gaúcho, Gelson Oliveira

Em abril lanço meu novo disco.

Em maio o festival Cantautor volta ao Cinemathèque para os lançamentos dos discos de
Diana Tejera (excelente artista romana parceira de Chiara Civell0), Richard Julian (já citado novaiorquino da troupe de Jesse), Nelson Coelho de Castro (brilhante artista, mestre das palavras, meu grande parceiro, morador de Porto Alegre) e Leo Minax (mineiro que vive em Madrid e é parceiro de Vitor Ramil e Jorge Drexler ).


Nelson Coelho de Castro, meu parceiro em Ouro, junto com Bebeto Alves e Jorge Mautner em dois tempos.



Em breve mais notícias de tudo isso.
Muito obrigado pela atenção.
Bom final de semana.

Abraçones e beijokones.



segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Fotos, Relatos e Rabiscos











Seg 11/01/10
6:16

Faz um certo tempo que não durmo mais do que 5 horas por dia. Dizem que o correto são 8 horas. Não fico esse tempo todo dormindo desde o começo dos anos 90, quando passei a dormir 6 horas diárias. Hoje, um pouco antes do sol nascer, as cigarras começam seu trinado, logo ouço um sabiá, depois os bentevis e outros pássaros. Uma casal de sanhaços sempre passeia pela minha sacada, a luz adentra pelas frestas no quarto. Às vezes, quando a noite anterior foi de lua, deixo a porta da sacada sem cortina e a luminosidade chega mais intensa. Essa é minha hora preferida de escrever poemas, quando acordo, porque ainda não estou contaminado pelas coisas do dia a dia, ainda estou mais próximo do inconsciente e as forças da natureza atuam em mim de forma mais intensa. Por isso tenho escrito tantos poemas que parecem naturalistas, ou melhor, assemelham-se a naturezas vivas. 



Outro dia Ana Carolina falou que minha maneira de escrever poemas era clásica, que sendo eu um cara tão urbano, cosmopolita, vivedor das coisas da cidade,  que era surpreendente como  eu tratava a palavra, os ritmos e as rimas desse jeito tão lapidar. Esperava que eu fosse mais visceral, mais beatnic, mais pro lado de Ginsberg escrevendo. É fato que já fui assim, na época em que fiz canções como Tô Saindo e Ela é Bamba por exemplo. Nessa fase os poucos poemas que escrevi eram mais carregados de fumaça e com estilo mais corrido, mais prosaico.





Hoje, busco em mim uma inocência perdida, perscruto as manhãs de minha infância, o jardim de minha avó, tão bem cuidado, em São Gabriel, a pureza do azul daquele céu pampeano, as estações bem definidas. Mas não sou saudosista, faço isso atualizando, valendo-me do belo que há em abundância na cidade do Rio de Janeiro, minha principal musa atualmente.

Além dos movimentos do sol e da lua, da cinematografia de São Sebastião, o diretor invisível, que, além de ocupar-se da iluminação e do cenário, muitas vezes parece conduzir minha biocicleta pela paisagem, outras coisas me tocam. São imagens, cheiros, pessoas, notícias, alguém que de longe liga, um passarinho diferente na janela, o movimento das nuvens, essas coisas que bolem a alma, além de uma solitude voluntária que me propicia silêncio suficiente para o olhar interno.




Sempre fiz mais música do que poemas. É pegar no violão e uma nova melodia nasce. E já fui muito grudado com o violão. Hoje faço isso no piano, mas nem sempre gravo, deixo aquela pequena composição naquele tempo e não volto mais a ela. Atualmente estou viciado em escrever. Uma parte do que escrevo publico aqui no Blog e no Facebook, além de frases rápidas no Twitter. Essa resposta imediata que esses meios de comunicação proporcionam são também outra fonte de inspiração. As reações dos leitores são matéria prima de primeira, são reações-musa.  






Tenho lembrado de Lewis Carroll com frequência, por várias razões. Por seguidamente acessar um livro de Deleuze a seu respeito, pelos poemas misturando línguas que me arrisco a fazer o que levou a lembrar-me do Finnegans Wake de Joyce, onde se encontram palavras-valise (palavras portmanteau, como diria Carroll, que delas se servia já na era vitoriana) e por lembrar do coelho de Alice,  pelo que ele me passa de fugidio e transitório, como o tempo, algo que parece constantemente escapar-me entre os dedos.  

O dia passa muito rápido, mal sento-me pra escrever e já está na hora de ir pro estúdio. Se me descuido das horas, não pedalo e não faço yoga, coisas essenciais pra mim hoje em dia.  Por isso durmo menos. 

Na sua busca pelo coelho Alice chega até o Chapeleiro Louco que brigou com o tempo e o fez parar.  Na mesa do Chapeleiro é sempre hora do chá. Enquanto isso o coelho continua correndo pra atender às ordens da Rainha de Copas, que representa a fixidez e a rígida moral vitoriana. 

Aqui estou eu então, brigando com o tempo e procurando escapar de toda rigidez sem tornar-me louco e nem esperar que o ponteiro do relógio estacione. A poesia me embala.


                    Fernando Prado, engenheiro de som  ao  fundo equipe de PH


Segunda passada comecei as gravações de meu novo disco. Chamei Torquato Mariano pra produzir comigo, o que é excelente, pois ele tem ótima metodologia, além de idéias e soluções criativas. O disco está começando a ficar muito bom. Geralmente produzo meus discos sozinho, no Sinal dos Tempos tive a co-produção de Gastão Villeroy, que também me ajudou muito, como sempre ajuda. Obrigado chefia.  É  bom ter alguém pra partilhar as decisões e para dirigir os músicos, pois embora eu tenha bem claro o resultado que quero, também gosto de ser surpreendido com coisas que não havia pensado.




                                              Torquato Mariano

Às vezes que produzi sozinho sempre tinha mais tempo, ia fazendo o disco, ouvindo e decidindo. Levava meses. Mas esse de agora a Biscoito Fino me deu um prazo o que implicou num trabalho mais dinâmico, o que requer uma equipe boa e coesa.

Tenho algumas gravações que já havia feito no final de 2008 e comecinho de 2009.
Dessas gravações estou guardando algumas baterias do Lincoln Cheib, baixos do Gastão, acordeões do Alessandro Kramer "Bebê" , um piano do Rafel Vernet e um violino solo do Nicolas Krassik.

Mas a sonoridade anterior estava muito pop e resolvi tomar outra direção, mais acústica, com a formação que pretendo me apresentar a partir do lançamento em março, tendo como base os meus violões mais baixo acústico e percuteria e sempre com algum instrumento harmônico ou melódico como convidado.

Sobre essas bases Monico Aguilera (que arranjou várias de Sinal dos Tempos) está escrevendo para cordas e Edu Neves para sopros (mais na direção de sons de madeira do que metais).

Muitas músicas inéditas e também a regravação de Felicidade do Lupicínio com outra harmonização que fiz e tocada sobre tambores africanos, que fazem lembrar a Cidade Baixa do Lupi.


                                 Sérgio Brandão, Jorge B Jr, Torquato, Antonio

Para formar essa base, chamei pra percussão o Jorge Bezerra Jr, que mora em Paris e tocou comigo lá no começo de 2009, e para o baixo acústico Sérgio Brandão que mora em NY e está voltando a viver no Rio e passará a integrar o trio que fará a tournê comigo junto com Joca Perpignan.

Algumas pessoas perguntam por que chamei um outro baixista tendo já um excelente na família e que inclusive é a pessoa que melhor conhece meu trabalho. O fato é que, além de estar buscando outra sonoridade,  Gastão toca direto com Milton Nascimento e Maria Gadú e já precisa se equilibrar pra atender um e outro, o que lhe faz colocar substitutos em um dos trabalhos toda vez que há uma coincidência de datas. Na época do lançamento de Sinal dos Tempos eu já penei, pois além do Gastão,  outro músico que tocava comigo, Lincoln Cheib, também era da banda de Milton. Enfim ...

Além do trio de base e das cordas e sopros, vão rolar violões extras de Daniel Santiago, pianos de David Feldman, sax e flauta do Edu Neves e harmônica do Gabriel Grossi.



                                          Sergio Brandão e França

Como técnico o Fernando Prado e Gustavo da Biscoito de auxiliar.
França, grande figura da lage do Morro da Babilônia fazendo aquela roudagem especial.

A equipe do PH, de Floripa, está fazendo o making off de vídeo a pedido de Kaká Schetmann que cuida do agenciamento de uma parte de minhas atividades junto com Raphaella Barcalla (Conteúdo), Simone Appel (exterior) e Pedro Villeroy (direitos autorais). O Roberto fazendo as fotos de estúdio e a Branca Escobar a criação gráfica.
Completando o time Ana Paula  assume a produção executiva e Mary Debs a assessoria de imprensa.


E sob as bençãos de toda boa energia que houver ficamos na Biscoito Fino  até 31 de janeiro. O lançamendo do disco deverá rolar na segunda quinzena de março.

E agora deixo vocês com imagens e poemas que fiz nas últimas semanas.
Beijones e abraçones.









Ode a Oxum

Assim que o dia refletia
na espelhada água
em seu gesto habitual
ela se mirava

filha de Oxum que era
natural que se fitasse
pra ficar mais bela

dentes brancos como a espuma
onde a língua se aninhava
num trejeito seu
tudo era atraente no que Deus lhe deu

tudo de rainha
em seu gracioso andado

pés em curva
braços leves
mãos aladas

nem a lua que ilumina o céu
sabe o quanto ela é amada












O anjo a rosa e o vento

Quem merece a rosa
do seu nome

e mais que o nome
o ser concreto
e tão vibrante
com seu belo e seu perfume
toda espinho
e inconstante

e os anjos
que aqui passeiam
vendo tudo se criar

ventre livre
das ideias
onde brotam
e se misturam
como em sonho edulcorado

o anjo
a rosa
o azul
e o céu rosado

como sustentar essa leveza

o véu
a pluma
o alento

e a sã delicadeza
que oscilando
quer deixar-se ao vento

como levitar
enquanto o mundo pesa
em concretude
e incerteza

como soerguelo
de seu fundo
ir buscá-lo
num segundo

asas
força
prumo
ligeireza

só amor
consegue essa proeza









Eyes of lightness

la lumière que plonge du ciel,
n'es fait plus que paindre mes yeux

a lagoa que ao longe reluz
fui eu que pintei pra você.

vorrei vedere più de la luna,
che adesso me guarda lontana

y bien más que los simples recuerdos
que me haces dejar por mañana.






Granito 

pesa
e respira
em contorno claro
que palpita
a escura rocha
que reparte em dois
o seu destino

ver-se ao longe e desejada
onde o sol se esconde
em fim de tarde

fora em priscas eras
monolito
a expressar
os filhos do fenício rei

dois irmãos 

antes disso e de as línguas
se tornarem incompreensíveis
e que fosse o sexo divido em dois

não houvera bússula
por não ser preciso

era de
andróginos perfeitos
tudo resfolgava em paraíso

foi-se a luz fazendo curva
a encontrar-se nela mesma
pra dizer que tudo era incerteza

tudo convergindo
em gravidade

rogo
abre-te sésamo
pra que a pedra
perca essa dureza

nesse agora
férreo tempo
que vislumbra  o horizonte
como coisa inacabada
há que ater-se
para dentro
onde reina o ser sereno

e saber-se
como eterno
nem tão grande nem pequeno
simplesmente o ser completo
 




(work in progress ...)















Sebastião, continue pintando, você tem talento pra coisa.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O ETERNO CUPIDO






tenho ao meu lado o cupido

 caminho do meio

entre eu e alguém


as pessoas são múltiplas

 o cupido um só

apesar dos metamorfoseados ares  

e olhares inesperados  

que de vez em quando faz

 

as pessoas mudam 

e voltam depois da mudança

ou então ficam

mas permanecem sempre mudando

 

eu mudo modificando o meu modo de mudar

de acordo com as mudanças constantes que acontecem

no tempo


e o que permanece?

 

O ETERNO

 

a ligação entre os pontos

os fatos perdidos distantes

que ainda virão amanhã

e os que já foram 

bem antes


tudo é um só


tudo converge em presente

num instante sem pensamento

só sendo


sem pertencer à ilusão

que se vê

quando se fala de espaço e de tempo

 

será que esse tempo passou

ou esteve apenas mudando?  


e o espaço também passará

ou será transpassado pelos jogos do tempo?

 

 tudo ilusão

exceto o cupido que caminha do lado

única coisa que vale de fato


ele com suas formas mutantes 

só mostra de tudo o sagrado

como Eros

como Cristo

como sexo divino

como amor fraternal entre os homens

ele abarca geral

 

e assim me  parece legítimo estar sempre com ele

realizando a evolução permanente

no aqui e no agora

único tempo real e possível

 

Eis aí algo pra se aproveitar

a oportunidade de mudança de ano

com uma  simples resolução que presida todas as coisas


De 2010 pra SEMPRE


AMAR ACIMA DE TUDO





Agradecimentos a todos que aqui estiveram lendo, comentando, trazendo informações e links legais. Continuempos plugados no ano que entra. Felicidades!!!!!!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O RIO E SUAS TINTAS















Passarem-se vinte e dois dias, a maior parte deles com chuva aqui no Rio, e eu sem tempo de postar, fui deixando o Blog aos cuidados do Bebeto Alves que interagiu nos comentários com nossos habituais visitantes e tantos outros que se achegaram trazidos pela curiosidade despertada pelo seu trabalho. Obrigado Bebeto pela sua contrubuição que muito enriqueceu essa página, obrigado a todos que tem vindo e que pacientemente esperaram pelo meu regresso.

Com os dias feios, dei uma parada nas atividades ao ar livre, minha bicicleta ficou encostada na garagem parecendo me olhar, inquisidora, cada vez que eu entrava no carro para meus compromissos externos.




Há dois dias o sol rompeu o bloqueio e conseguiu enfeitar à seu modo a cidade. Voltei a fazer tudo pedalando e fui fotografando o que via. Há muitas coisas a falar, visitas que andei fazendo em favelas para um novo projeto que estou desenvolvendo e dois encontros importantes que tive nesse perídodo,  com Alegre Correa, excelente músico e grande amigo que mora na Áustria e está na fase final de elaboracão de um portal de música e com um advogado, Gustavo Cortês, que tem idéias parecidas com as minhas para processos de reciclagem e reaproveitamento do lixo e que já está com estudos bem mais avançados que os meus, trabalhando já em equipe, com estatísticas, gráficos, proposições concretas e boas perspectivas. Alertou-me que há uma "máfia do lixo", coisa que constatei depois em pesquisas, gente que ganha muito dinheiro com os lixões e com o transporte de dejetos. Muito da política e do dinheiro nela aplicado vem dessas fontes e por isso é muito difícil chegar com idéias novas. Mas estamos nos organizando e em breve darei mais notícias. Provavelmente precisaremos contar com vocês, com sua vontade de trabalhar, de escrever, de denunciar e, quem sabe, de associar-se em alguma parte de nossos projetos.



Tainara Claudia, que sempre contribui com comentários relevantes e bem fundamentados  na Câmera, sugeriu-me falar do sentido oculto do Natal e publicou no seu blog um texto muito elucidativo a esse respeito. Li, gostei e de quebra curti dois poemas seus lá publicados. Acho que sobre seu texto não tenho nada a acrescentar por hora, por isso deixo a vocês o link da página dela, em breve irei lá comentar. Vale a pena:

http://www.tainaraclaudia.blogspot.com




Acordei cedo e hoje vibro positivamente com uma pessoa muito querida e encantadora que passará por um processo de cura. Estou há dois dias com meus melhores pensamentos para ela e à disposição para o que for necessário. Relimpei meus canais e agora me sinto mais apto para essa entrega de ajuda. Essa pessoa ainda nos dará muitas alegrias e fará parte de minha vida cada vez mais.

Para que o dia continue belo, vou deixá-los com algumas fotos e escritos pequenos que fiz nos útlimos dias.
Boa quinta e bom fim de semana a todos.
Beijones, como diz Hannaly.













O Rio e suas tintas 
    
O Rio não é cidade
é beldade,
belicidade total
onde misturam-se
musas
como partes que são de um vitral ...

a musa que é dançarina
única
ser principal
a bela de porcelana
medusa
 a escritora fatal
a fera
 a vilã soberana
a arcana
 a morena coral

Musas multiplicadas
em miras
miragens de água
onde adormecem macias
as rosas remidas de mágoa

e assim se enovelam
e desfiam
em curvas de luz nacarada
e vestem de branco e azul
a vênus 
recém despertada






Frère soleil


Il a venu ce matin
comme au sortir d'un rêve étrange
aurait la lune lui emprisonné
ou il était couché sur un coussin de nuages?






Elle marche dans la rue et s'en va
                              C'est la pluie
                                                                                                                                                                                 les gouttes comme des petits soldats ...
 Je sens sa tendresse
                               lorsque ses mains me caressent
 
              
                          

                             
                                       
                  
             Poemofagia                                
          
         nuvens engolem a paisagem
a chuva é só maresia
o Rio transpõe outra margem
pra me delivrar poesia






Ma soeur, la lune

 sous le signe de cancer 
je connais bien la lune 
ses mensonges
 ses mystères 

l'influence q'elle a sur mes fluides 
la façon de bouger
mes liquides
l'attraction qu'elle exerce sur la mer

comme les femmes
je sens q'elle fait
les tempêtes qui troublent mon cœur


     




quarta-feira, 25 de novembro de 2009

AMIGOS NOTÁVEIS 2: BEBETO ALVES / O QUE VEM DOS PAMPAS





                                                            Entardecer nos pampas


Nesse post abro espaço para meu amigo e parceiro Bebeto Alves falar de um projeto novo seu. Homem inquieto e de muitas idéias, Bebeto é gaúcho da região  da fronteira como eu, onde começa a paisagem conhecida como pampa  em que os campos se estendem para além da vista em pequenas ondulações a que denominamos coxilhas. Nesse ambiente surgiu  a figura do gaúcho, aquele ser andejo, que no lombo de um cavalo atravessa as fronteiras do real ao imaginário para ser reinventado nas páginas de Simões Lopes Neto, Erico Veríssimo, Aparicio Silva Rillo,  Barbosa Lessa e de nossos vizinhos, Jorge Luis Borges,  Ricardo Guiraldes  e Martin Fierro, entre outros brasileiros, argentinos e uruguaios. 

Bebeto foi atrás das origens desse ser emblemático e encontrou suas pegadas no pó de paragens distantes, da Península Ibérica e da África do Norte, conhecida como Mahgreb , onde muitos chegaram provindos também do Egito, o que lhes conferiu o nome de egiptanos,  gitanos, ou ciganos e que são, aliados a outras etnias, os formadores da constituição genético cultural do Rio Grande do Sul e cercanias.


Bebeto tem pensado muito sobre o papel que essa cultura criada em torno do paralelo 30 brasileiro pode e deve desempenhar para integrar-se no mosaico cultural do país.  Ele explicará isso à sua maneira, pois sei que perde o sono bem mais do que eu com essas questões, mas é sabido que o Brasil absorve mais a cultura vinda de suas regiões mais quentes do que a provinda de nosso clima sub temperado.  

Isso pode ser creditado, em parte, aos diferentes momentos em que o Brasil necessitou forjar uma identidade nacional e buscou em suas manifestações mais tropicais a sua forma de representação para o mundo externo e para si mesmo, como aconteceu no momento da Proclamação da República, onde deu-se uma ênfase ao chorinho e ao maxixe como formas musicais representativas do país, e, num outro momento, com o enfoque dado ao samba por Getulio Vargas durante o Estado Novo. E isso não fica restrito à musica, o mesmo aconteceu e segue acontecendo  com a literatura, as artes plásticas, o cinema, etc


 Guilherme Litran: Carga de Cavalaria,  1893 acervo  Museu Júlio de Castilhos, P. Alegre


Sobra ainda um estigma relacionado a uma falsa idéia de que o gaúcho é separatista, sendo que o movimento conhecido como Guerra dos Farrapos, que começou reivindicatório contra os altos impostos cobrados pela coroa e a impossibilidade de se colocar na presidência da província um representante indicado pelos próprios gaúchos,  desdobrou-se em uma manifestação republicana e abolicionista que visava, antes do que separar-se, integrar o Brasil a uma modernidade inspirada nos ideais da Revolução Francesa e também no modelo federativo da constituição americana. Nós gaúchos não somos separatistas, mas, de certa forma, como identidade cultural, sempre ficamos meio apartados da colcha de retalhos da produção brasileira. 

Muitos já se debruçaram de forma constante e efetiva sobre essa questão, abordando-a sob pontos de vista diferentes, como Vitor Ramil que fez profundas  reflexões a respeito do tema,  criando a partir de suas perspectivas um conjunto de pensamentos que resultou num conceito estético que ele denominou de Estética do Frio, a partir do qual vem orientando seus trabalhos em música e literatura. Embora eu não me identifique com tudo o que ele apregoa, reconheço o esforço intelectual  do Vitor e o salto  qualitativo que  sua obra alcançou a partir do momento em que seu trabalho tomou esse rumo, angariando um público  cada dia maior no Brasil e em outros países da América do Sul, da Europa e no Japão, o que veio a colaborar para uma maior visibilidade da arte produzida no RS.

Mais sanguíneo e solar, Bebeto apresenta seu modo de interpretar essa mesma gema cultural, evidenciando seus aspectos  mais africanos, acrescentando em sua perspectiva artística uma verve mais emocional e ritmcamente mais ativa. Portanto essa sua viagem ao Marrocos, à Catalunha e a Portugal apresenta-se como um reencontro seu com suas origens, com seus sentimentos mais profundos, o que fica evidente quando o vemos interpretar suas canções carregadas de imagens como se fossem caravanas plenas de mercadorias e paixões. Essa viagem e outras incursões de Bebeto pelo Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Argentina estão sendo registrados em Vídeo HD e farão parte de um longa metragem sobre sua carreira, sua produção cultural e seus pensamentos. A riqueza das  imagens publicadas abaixo anunciam que vem por aí um trabalho muito importante sobre a cultura do Brasil produzida nessa região ainda pouco explorada pelos próprios brasileiros.


Com a palavra esse artista que tanto admiro.

 

                                                            Torre de Belém, Lisboa


MAIS UMA CANÇÃO por Bebeto Alves


Convidado pelo meu amigo Antonio a trazer até vocês , no espiríto do “A Câmera Que Filma Os Dias” o conhecimento de um trabalho que estamos realizando desde o ano passado; uma reflexão sobre matrizes étnicas culturais , origens , dna, genoma, da composição de um território criativo, de uma subjetividade inexplorada em sua totalidade e pouca entendida dentro de um conceito de identidade nacional no universo da nossa cultura popular, no mapa da nossa canção  brasileira, em seus movimentos e caminhos, organizo  cronologicamente , a fim de leitura , esse volume.

 Sem negar, absolutamente, todos aqueles que já estabeleceram , de uma maneira ou de outra, uma relação como essa cena, seja através de um mercado, ou ,  a partir de conceituações que eventualmente buscam sua tradução. Ou, ainda, atentos às mudanças de paradigmas  na indústria cultural, no mercado  fonográfico  e editorial, nas relações com um público que se utiliza de  novos meios para se relacionar com a canção e seu processo criativo, entendemos  que uma derivação de conceitos, novas idéias, e reflexões ainda mais aprofundadas sobre um “ sul brasileiro estado de coisas”  original, diferente e novo, pode contribuir para o enriquecimento do  imaginário poético-musical do país. Ver a diferença e com ela buscar a soma , a multiplicação isso é o que nos move. Na  busca da singularidade não existe convenção, nem tempo, muito menos  qualquer tipo de realidade, que invalide esse tipo de  processo, de busca e de entendimento.

 

                                                     Peña Flamenca em Jerez (Es)

Tudo começa no ano passado, no Rio, quando procurado pela equipe da Estação Elétrica, produtora de cinema de Porto Alegre, para fazer um still fotográfico para uma entrevista com Andy Summers e Roberto Menescal,  sobre  “Orfeu Negro” : Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1963. Filme que faz parte da história da cinematografia brasileira , e que tinha como protagonista um jogador de futebol do Rio Grande do Sul, chamado Breno Melo. “Pescado”  nas  ruas da cidade do Rio  pelo produtor françês, Breno se tornou uma celebridade e, tão rápido quanto se possa imaginar, caiu no esquecimento. O filme que o diretor Alexandre Derlam (Alex) está construindo versa sobre esse personagem e está em fase de captação.

 Daí surge o que se segue: No final do ano fui a Porto Alegre para fazer um concerto com a Orquestra de Câmera de Theatro São Pedro. Convidei essa equipe, o Alex, de quem tinha me tornado amigo,  para fazer uma captação de imagens para , talvez, um futuro DVD . O concerto realizou-se, e, realmente, fizemos a captação.

 As imagens lindas, som excelente, mas…nos veio uma sensação de “ tá… Mas, e dai?  É isso?, só isso? “

Não, não era só isso. Foi o começo de um processo que tem nos levado a muitos lugares,  a buscar  não somente imagens bonitas, cenários, mas um aprofundamento de nossas origens culturais a partir de um sul multifacetado, plural, diverso.

 Um grande making-off, um documentário. Se fez necessário esse tipo de formato, desse tipo de  espaço pra cantar essa canção. 

                          Confraria do Funcho, Uruguaiana, RS


Sou um homem nascido na fronteira oeste do sul do Brasil.

 Com o Uruguai e a Argentina  testemunhando  um mundo possivel de viver, além dos limites geográficos e culturais, desde pequeno me acostumei com a idéia de que esse mundo era transponível, tinha de ser. Além de qualquer convenção internacional de nacionalidades , além da aduana, da alfândega, do passaporte. O que me fez entender , também, necessáriamente, que a esse contato , eu tinha uma identidade: um brasileiro, aos olhos desses vizinhos.

Talvez, isso já bastasse, com  o amálgama de que é composta  a minha música  - o pop rock internacional, a música argentina, o tango, o chamamé, a milonga sul brasileira, o samba dos fuzileirios navais e o carnaval fronteiriço, a cancão italiana, o cinema françês, o Existencialismo,   a Jovem Guarda, o Tropicalismo, Mutantes, Gil, Caetano, os  anos sessenta, para uma sensação de integridade

Mas, a fronteira do Brasil, o oeste-sul do Brasil nos faz enxergar mais longe, queiramos ou não, ver outras possibilidades. 

                                                            Milonga marroquina

Composta de etnias inusitadas- franceses, catalões, árabes, sirio-libaneses, palestinos, judeus, bascos, além dos portugueses, negros, índios, espanhóis, e mais recentemente (falo de fronteira!) , italianos e alemães -, ao nos despir de todas a influências possíveis, vamos encontrar um espírito melancólico, reflexivo  ambientado no plano da lonjura e da imensidão.

 Um canto melismático, choroso, brota inconsciente: ai, aiaiaiaia, ai, aiai aiiiiiii…Que nos remete às franjas étnicas do norte da África, e que nos levou  até o Marrocos, Andaluzia, no sul da Espanha e Portugal.

     

                     Dan Ova e Veludo, Sambistas de Uruguaiana

Depois de termos filmado na minha cidade, Uruguaiana, entre a Confraria do Funcho, o corpo de veteranos dos fuzileiros navais, à beira do Rio Uruguai, em Paso de Los Libres na Argentina, no pampa,  fizemos essa viagem de descoberta às avessas.

 

                                  Penha flamenca em Jerez


Encontramos a correspondência, tanto no norte africano quanto so sul da Espanha,e , claro, em Portugal, em Lisboa.

 Ainda falta o Rio, falta Buenos Aires para cobrir  a extensão imaginada pela nossa aventura cinematográfica..

 Somaram-se a equipe,  desde o início, além de Alexandre Derlam, o diretor Rene Goya, os cinegrafistas Pablo Chasseraux e Jair a produtora Vivan Shafer e a equipe toda da Estação Elétrica. O roteiro está sendo elaborado pelo jornalista Márcio Pinheiro. Tudo dentro de um espirito onde os “ pitacos” são aceitáveis, claro.


                                              Equipe Estação Elétrica em Jerez


Eu sei que muito já foi pesquisado e vivenciado, mesmo dentro da nossa canção popular, isso já foi tocado aqui e acolá, mas nada minimiza a contribuição que esse filme pode trazer  para a compreenção do caráter da canção brasileira ao sul do Brasil e por extensão  do seu enriquecimento com esses novos anexos ao território  da nossa música popular, propriedade de todos nós brasileiros. 

  David Lagos, cantor flamenco, e Jesus Pulpón, produtor do filme na Espanha

Ah, em tempo, o nome provisório do filme é: Mais Uma Canção.Nesses países, por onde, até  aqui, estivemos, foram gravadas cenas com artistas locais. Buscando aproximações ,nos certificando de todas as diferenças, misturando tudo.

A estréia desse longa está marcada para o primeiro semetre do ano que vem.

Valeu Totonho. Deixo um super abraço a todos.

Bebeto 

 

Bebeto e o diretor Rene Goya em Tanger



Bebeto Alves é cantor e compositor com 23 discos e um DVD lançados. Autor de sucessos gravados por Ana Carolina,  Tânia Alves , Kleiton e Kledir, Ednardo e Belchior, entre outros.

Tem três filhas, Luna, Kim e  Mel Lisboa e três netos Ana Clara, Bia e Bezinho.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

DEPOIS DE MUITAS VOLTAS OUTRA VOLTA

 

Pois é, quase 30 vezes o sol nasceu no mar sem que eu conseguisse concentração para atualizar o blog. Andei fazendo uma reestruturação geral na vida profissional e particular. Passei a delegar mais funções a pessoas diferentes e isso exigiu de mim uma organização interna para que a distribuição se efetuasse de forma correta.  Em breve meu site também deverá entrar no ar com algumas mudancas que  refletem essa reengenharia.  No âmbito pessoal, tenho sido mais seletivo com as amizades. Tenho conhecido muita gente e  por isso passei a evitar pessoas que infelizmente me procuram apenas quando tem algum tipo de interesse. E assim segue a vida em seu ritmo ondulatório, uns vão  e gente nova aparece no pedaço.



Nesse período  aconteceram belos encontros musicais. Dia 23 de outubro,  Ana Carolina deu uma festa em sua casa pra receber John Legend. Foi muito bom conhecê-lo, afinal temos uma parceria bombada nas rádios sem que nunca tivéssemos trocado uma palavra. Foi bom ouvir de sua própria  voz que havia gostado da melodia que eu fiz para Entreolhares. Ele a achou emocionalmente intensa e muito boa de cantar  e , por isso, a letra em inglês teria fluido tão bem. Ficamos de fazer mais músicas juntos.  Além do bom papo, ele ainda deu canja tocando piano e cantando coisas do seu repertório com aquele feeling que só mesmo os grandes artistas do ritm & blues parecem ter.



No sábado, 24, fui ao show de Maria Bethânia, que me deixou muito emocionado, pois fala muito das coisas que estou vivendo agora. Fui no camarim dar-lhe um abraço apertado e agradecer os momentos sublimes.

Acho que foi o seu show mais simples e ao mesmo tempo mais emocionante a que eu já tinha assistido. Simples porque com menos instrumentação melódico/harmônica, deu mais ênfase às percussões o que deixou as músicas mais perto do chão.

Essa simplicidade associada ao excelente repertório e à total entrega de Bethânia ao interpretá-lo conduziram meu coracão ao encontro de emoções muito vivas, de tristeza, saudade,  alegria, esperança.

Bethânia tem o dom de adornar  cada palavra com um gesto, às vezes mínimo,  tornando tudo mais visível. As melodias brilham com os fonemas, às vezes um pequeno movimento das mãos ou do rosto carregam consigo toda essência do que está sendo dito. Só Betha faz isso com essa precisão.

Assim recordei "Pra Rua me Levar",  a primeira canção que, em parceria Ana Carolina, escrevi para Maria Bethânia.  Começava com os versos:

Não vou viver como alguém que só espera um novo amor  

Há outras coisas no caminho aonde vou ...

E na sequência:

sei olhar o rio por onde a vida passa 

 sem me precipitar e nem perder a hora

Enquanto escrevia, eu pensava na poesia de Fernando Pessoa, que  sabia ser uma das preferências literárias de Bethânia, mas também referia-me ao rio de Hieráclito, em eterna mudança assim como o homem, o rio que é fluss em alemão,  o fluxo da Cabala que equivale ao Tao na sabedoria chinesa, de onde venho tentando aprender a tomar  o Caminho do Meio, sem precipitação e sem atraso.

Hoje, essa letra  parece-me enriquecida de sentidos. E foi a própria existência que se encarregou de fazer isso. As vivências nunca se repetem e, se ficarmos atentos, nem mesmo a rotina existe, cada situação, por mais dejá vu que pareça, sempre carrega consigo novidades, basta que estejamos despertos e aptos a temperar esses momentos com novos sabores.



Continuo fazendo tudo o que posso de bicicleta. Nessa última semana, cem por cento honrada pelo sol, quase não saí de carro. Além do bem que faz à saúde, à economia e à atmosfera, as pedaladas são uma boa forma de concentração e reflexão.  Nos dias de passeio, faço longos percursos. Às vezes, vou até o Horto, amarro a bike e pego uma trilha pelo mato até a cachoeira do Chuveiro. Se tenho tempo, vou mais longe e prefiro fazer isso sozinho, em silêncio. Na subida da Floresta começa um trajeto interno de descobrimento, os pensamentos se organizam, depois cedem lugar ao encanto da paisagem, a Mata Atlântica derramando seu explendor, com seus perfumes e sons particulares, seus pássaros revoando e balançando os galhos. Em meio ao verde, lembro de Tom Jobim, que era um apaixonado pela Mata e  dedicou a ela sua obra.



No dia seguinte ao show da Bethânia, subi a estrada da Vista Chinesa, onde fiz uma pausa, passei pela Mesa do Imperador e segui até o  Alto da Boa Vista e de lá para a Estrada das Paineiras onde tomei um banho de cano (aquela queda d'água que também é conduzida por um cano que proporciona um jato grosso que lava até a alma).  Na volta, peguei o caminho pela Estrada das Canoas até São Conrado e depois retornei para a Zona Sul pela Niemeyer e ainda tive gás para tomar um côco em Ipanema, antes de subir pra casa de bem com a vida.



À noite, apesar dos quase 40 km percorridos com muito sobe e desce, estava inteiro e fui no aniversário do Milton Nascimento onde encontrei  Bárbara Mendes, Mart' nalia, Leila Pinheiro, Caetano, Seu Jorge, Moska, Jorge Vercilo, Flavio Venturini, Vanessa da Mata e Atalita Morais, entre muitos outros queridos amigos. Depois de  encontros e conversas, fizemos uma roda de violão que começou com samba, passou pelas baladas e fechou mais uma vez com samba pelas 4 da matina subindo as escadas no meio da chuva, na maior alegria. Milton estava muito feliz, radiante. Das festas em que fui na sua casa essa foi sem dúvida a que eu lhe senti mais feliz, havia uma grande integração e um espírito amoroso no ar.



Tenho ido a muitos lugares que não conhecia e voltado a frequentar alguns que haviam caído no meu esquecimento.Sexta passada, fui com minha amiga Lu Pessanha, a “Mulher Bomba”, conhecer  The Maze, uma casa de um gringo na Tavares Bastos onde rola uma festa regada a jazz e cerveja morna (ainda bem que não bebo), onde circulavam muitas pessoas bonitas, como a antropóloga Dani Ramiris  e  Mariana Palis, a anestesista incrível. A vista da Baía da Guanabara com Pão de Açúcar em destaque era absurdamente linda, mas a casa foi hiperlotando e se tornando cada vez mais quente, o jazz não era lá essas coisas e por isso não permanecemos uma hora.   A Tavares Bastos fica no Catete e, de tudo, o que mais gostei foi de ver uma favela apaziguada, sem presença de comandos, nem polícia e nem milícia. Parecia que estava em uma pacata cidade do interior, as ruelas limpas, os moradores tranquilos, as casas com boa estrutura. Isso deu-me alento,  fez-me pensar que os problemas estruturais do Rio podem ter solução.



O BRASIL DEVE METER A CARA

Depois dos últimos acontecimentos globais, pós-crise, com uma diminuição da influência americana e o avanço de países emergentes, uma nova configuração geopolítica começa a se desenhar. Sinto que o mundo está a cada dia olhando o Brasil com muito mais atenção e parece que há uma grande expectativa sobre como contribuiremos para criar uma nova ordem mundial. Nosso território continua sendo o mesmo desde a anexação do Acre e equivale a 16 vezes a área da França. Sempre fomos esse gigante abaixo do Equador, só que sempre estivemos fora do centro das decisões mundiais, nunca fomos levados a sério e nos projetamos mais como um país moleque, bom de bola e com samba no pé.  Agora chegou a hora de mostrar maturidade, de virarmos adultos assumindo uma posição de liderança compatível com nossas dimensões, nossas riquezas e nossas capacidades potenciais. Não há porque deixar essa oportunidade histórica nos escapar.



A Copa de 2014 , as Olimpíadas de 2016 e o Pré -Sal ampliaram um foco que já vinha sendo direcionado para o Brasil, desde que começamos a arrumar a casa já no primeiro período de FH, com o plano Real,  mas principalmente a partir do segundo mandato do presidente Lula com tudo o que ambos governos tiveram de contraditório e por mais que nos tenham desagradado em alguns momentos com posturas, discursos e  decisões equivocadas, entre elas a indiscriminada liquidação de estoques feita pelo presidente tucano.

E eis que ano que vem teremos eleições presidenciais e, no meu entender, nenhum dos candidatos que estão se apresentando parece ter  todos os coringas necessários para encarar esse novo desafio. A continuidade do governo Lula com Dilma oferece um perigo totalitário de centralização e estatização de tudo, que parece querer atingir até mesmo os setores de criatividade artística com o controle dos direitos autorais pelo Estado, o que seria um completo absurdo. Além disso, acho que a Dilma não tem o carisma do Lula e não obteria o mesmo respaldo do atual presidente entre os líderes das grandes nações. Corremos o risco de ficarmos com o que de Lula é sua parcela mais negativa.



Assim como Caetano, simpatizo com Marina Silva. Mas simpatia não é tudo nessa hora. Acho que Marina carece de um conhecimento maior das coisas administrativas e além  do que, me parece que lhe falta também um histórico que a qualifique como líder com capacidade para agregar quadros técnicos e politicos importantes em torno de seu governo.

O Serra é o Fernando Henrique sem charme e sem Sorbonne, com um tipo de proposta que parece já ter cumprido o seu papel  naquele momento de transição que antecedeu a Lula. À essa falta de novidade sinto aliar-se, no campo externo, uma ambição anêmica, quase nula, que risca descambar para o entreguismo e  a um estado de subserviência  a que não podemos mais retroceder. Prefiro de longe a cafonice  convicta do Lula com suas certezas históricas e sua fome quase infantil, de “quero o meu”, com ingenuidade suficiente para nunca sentir-se ridículo e capacidade de articulação impressionante a ponto de ter conquistado o status de estadista mais prestigiado no mundo atual, mesmo não sendo, pelas convenções instituídas, um homem (que se possa chamar de) letrado.



Mas, se houvesse uma possibilidade de terceiro mandato, o risco seria de dormirmos com Lula eleito e acordarmos com Chávez na presidência. Não o Chávez em pessoa, mas a personificação em Lula daquilo que o Chávez tem de pior, os aspectos ditatoriais que toda a permanência no poder tem o dom de engendrar, acrescidos de um fisiologismo sindical e um corporativismo faminto e discriminatório altamente perigoso.

Se eu fosse arriscar uma equação matemática somaria Marina  + Gabeira + Ciro Gomes e poderíamos ter uma boa proposta mas ainda assim talvez  faltasse carisma e tenacidade. 

A conclusão que chego é a de que quem vai fazer o novo Brasil é a sociedade civil organizada. Será através de nossa atuação que as coisas poderão tomar o rumo que desejamos. A meu ver o Estado deverá ser não o sujeito absoluto das transformações, mas sim um agente agregador e regulador, pra que não se cometam excessos nem injustiças e para onde as decisões sejam levadas para serem executadas ou encaminhadas para execucão por setores produtivos da sociedade seguindo as diretrizes sugeridas de forma participativa e descentralizada por associações que se criem de forma espontânea a partir das necessidades de cada localidade, dando mais autonomia às Federacões, para que se encontrem soluções específicas para os problemas locais, sem nunca perder de vista a totalibade do país e a integração que deve haver de parte a parte. Para mim, portanto, o melhor candidato será aquele que estiver com  disposição para interagir abertamente com a sociedade, ouvindo suas propostas, incentivando projetos autônomos consequentes e investindo em novas tecnologias visando o reaproveitamento de matérias primas e a geração de empregos através de uma cadeia de micro, médias e grandes empresas de reciclagem, que a meu ver pode ser uma grande fonte de riqueza ao mesmo tempo em que atua na economia de  bens e nos processos despoluição e preservação da natureza. Para isso também terá de haver rigor quanto aos níveis de emissão de dejetos, obrigando as grandes empresas a mudarem seus modelos de produção tendo em vista uma maior responsabilidade social e ecológica.



Muitos se perguntarão, como esperar que isso aconteça no Brasil, com a polícia matando e roubando, com o poder paralelo nos morros e periferias, com os estudantes tapados, reprimidos e agressivos agindo de forma violenta sob a  proteção de uma Universidade a comportar-se como uma instituição medieval, como aconteceu no episódio envolvendo alunos da Uniban recentemente.

Mas o fato da Uniban ter voltado atrás na sua decisão devido aos protestos da sociedade reforça essa minha fé  no poder de organização das comunidades, dos bairros, das tribos, das minorias e maiorias, dos ecologistas, dos empresários com visão de futuro organizados em prol de um crescimento limpo e responsável. Portanto, temos sim que pensar e muito em quem depositar nosso voto, mas com a convicção de que teremos que fazer nossa parte colaborando ativamente para essa transformação.



Semana passada estive envolvido em duas situacões em que a polícia do Rio agiu de forma abusiva. Um dia, no centro da cidade, um rapaz que fazia entregas vinha com um carrinho cheio de marcadorias quando teve uma de suas caixas furtadas por dois jovens que sairam correndo pela rua sete de setembro. Ao serem perseguidos, o que portava a caixa jogou-a no chão e conseguiu escapar, o outro, apesar da habilidade nos dribles de corpo, acabou tomando alguns socos e pontapés e perdeu velocidade sendo paralisado por um guarda que o algemou e o jogou no chão.

Nesse momento, uma parte da multidão que se aglomerava na volta começou com gritos de mata e lincha.  Contestei um homem que fazia coro a esses absurdos do meu lado e ele respondeu que “bandido bom era bandido morto”. Eu lhe disse que seu pensamento sim era um pensamento de bandido,  porque matar ou incitar à morte é crime muito maior do que furtar uma caixa de mercadorias.

 Nisso, o policial deu um pisão nas pernas do autor do furto, o que me pareceu uma forma de avivar a brasa daquele “espetáculo”. Não pude assistir àquela cena passivamente e gritei pro guarda;

-       Que é isso rapaz? Porque vc estava fazendo isso? o cara já está imobilizado!

-       Ele disse que era pra o sujeito ficar melhor sentado

-   Respondi que ele estava abusando da sua autoridade e que estava fazendo aquilo pra agradar a sua platéia.


FFoi quando chegou outro guarda com uma rapaz negro pelo braço que gritava: "sou trabalhador, sou trabalhador, tá aqui minha carteira, eu trabalho no taxi balsa," e mostrava a carteira de trabalho.

-       O guarda falou: vc estava com eles, vc estava correndo também.

-       E o cidadão respondeu que estava correndo porque estava atrasado para o trabalho,  mostrou seu crachá, e , quase chorando, pediu pelo amor de deus que o guarda não cometesse com ele aquela injustiça

-       O guarda tentou lhe dar um passa pé mas ele resistiu.

-       Quando foi dar o segundo, me atravessei e disse pro guarda: pára com isso! vc não vê que pode estar mesmo cometendo uma injustiça?  O cara tá te mostrando a carteira de trabalho dele, verifique antes de sair batendo. Um terceiro guarda que parecia comandar a operação  deu-me razão e afastou o outro dizendo que ia se ocupar do sujeito.

-       Vendo que estava tudo certo liberou o injustiçado, que ficou de longe gritando

-   - "eu não sou ladrão, eu sou honesto. Só porque eu tava correndo. No Brasil preto correndo é ladrão. Vc é racista. Eu sou trabalhador e se fosse ladrão não ia roubar essa mixaria, ia logo roubar um banco."

Então fui até ele e disse-lhe para se acalmar, para sair dali, que voltasse ao seu trabalho, que ele tinha razão, era indigno o que ele havia sofrido, tanto que eu o tinha ajudado, mas que se insistisse naquela atitude poderia dar motivos para os policiais mudarem de idéia e até enquadrá-lo em desacato a autoridade, ainda mais com todo aquele público diante do qual não poderiam ser desmoralizados. Ele se foi, espumando.

 Voltei e, vendo lado a lado o entregador e o ladrão, percebi que eram muito parecidos, mulatos suficientemente claros para serem chamados de brancos, ambos por volta de 24 anos, com bermudas, camisetas e boné parecidos. Até mesmo uma barba rala adornava ambos os rostos e os narizes levemente aduncos lhes eram semelhantes.

Mirei  o rapaz que tentara roubar e lhe disse, apontando o entregador:

      " Cara,  olha bem pra ele, vocês se parecem, tem a mesma idade, devem até gostar das mesmas coisas, são fisicamente parecidos e se vestem da mesma forma, poderiam fazer parte da mesma turma, talvez venham a se encontrar num baile à noite. A diferença é que ele estava trabalhando e você roubando. E decidiu roubar um cara que poderia até ser seu amigo. E agora você está aí sentado no chão, algemado, com todas essas pessoas ao seu redor lhe fazendo ameaças. Olha só em que merda você se meteu."

 Ele tentou dizer que estava perseguindo o verdadeiro ladrão, mas não colou porque o entregador o vira segurando o carrinho enquanto o outro pegava a caixa.

O mais impressionante era o ladrão ter pego aquela caixa sem saber o que havia dentro. Um roubo que era também uma espécie de loteria com poucas possibilidades de conter um grande prêmio. É esse Brasil que precisamos equacionar.



Outro dia estava com umas amigas no lado de for a do Azul Marinho, o restaurante do Hotel Arpoador Inn, que espalha suas mesas no passeio  sobre a praia. Entre as mesas e as paredes do hotel passa uma via pequena para um carro que serve de acesso aos moradores dos prédios vizinhos e à policia para suas rondas até a pedra.

Eis que um carro de polícia passa correndo a uns 60 por hora saindo daquela viela onde a velocidade não deve ser ultrapassada dos 20km/h. Dei um grito mas não adiantou.

Daqui a pouco eles voltaram na mesma velocidade. e dessa vez, pela mesma via,  vinha um garoto com menos de 10 anos andando de bicicleta de quem o carro da polícia se aproximava sem aliviar o pé. Vendo aquilo levantei fui em direção à viatura fazendo sinal com as mãos e gritando. Eles diminuiram e quando chegaram perto falei.

" Tá maluco? Isso não é velocidade para se andar aqui. Não vê que vocês coloca a vida das pessoas em risco? Vocês tem que dar o exemplo."

Um deles respondeu que estavam atendendo a uma ocorrência e que se chegassem tarde era deles que iam cobrar.

E eu respondi que se atropelassem alguém andando ali naquela velocidade também era deles que iriam cobrar e que havia todas aquelas testemunhas ali do restaurante.

Os caras não falaram mais nada e seguiram bem mais devagar.

Na volta vieram quase parando, eu estava de costas e quando chegaram perto de minha mesa dimiruiram ainda mais e ficaram olhando, as meninas reagiram com o olhar e, quando eu me virei,  eles seguiram

Esse tipo de atitude quando você está convicto, coberto de razão e amparado na lei acaba intimidando até mesmo esses caras truculentos. Afinal, eles não tinham como saber se eu era um policial superior de folga, ou à paisana.  A policia do Rio já sabe que a sociedade está de olho nela também.

O incidente envolvendo Itaipu e Furnas ontem à noite mostra o quanto toda centralização é perigosa.  Houve já um grande investimento nessas hidrelétricas e não há como abrir mão de seus benefícios agora, mas temos que ter um plano B que inclua soluções locais, menores, com energia gerada por novas fontes,  que podem até vir do reaproveitamento de matéria orgânica e que numa emergência possam suprir as necessidades de uma cidade por um razoável período de tempo.

Isso corrobora com minha idéia de que empresários com uma visão avançada podem dirigir seus negócios para esse tipo empreendimento. Já citei em comentário ao post Jogos, Futuro, Amor, Cidadania os casos da Novagerar e da Biogás de Nova Gramacho aqui no Estado do Rio como exemplos bem sucedidos desse novo modelo de pensamento empresarial com responsabilidade ecológica e social.

Mas tudo isso ainda está engatinhando, a podridão é muito grande, mas eu prefiro colaborar para as mudancas a pensar que o mundo como conhecemos terminará em 21.12 de 2012. Aliás, sexta estréia o filme, que pretendo assistir e comentar depois. O Calendário Maia e as previsões feitas para daqui a 3 anos e pouco são um tema interessante a ser debatido. Quem tiver interesse que vá preparando seus argumentos.



Ontem à noite, com o apagão, o Rio tornou-se uma paisagem diferente, com focos de luminosidade emergindo da neblina entre o vazio dos prédios e os faróis dos carros dançando como se não houvesse chão. A visão não era bela, mas sublime, na acepção de Kant. Mais comovente do que encantadora,  causando  espanto, respeito, quase medo, mas com uma força de atrair o olhar que me fez permanecer ali por um bom pedaço de tempo.  

O dia amanheceu com tudo normalizado, o céu tomado pelos albatrozes e urubus, os bentevis atacando corajosamente um gaviãozinho na antena de um prédio vizinho e o casal de sanhaços namorando entre as roseiras da minha varanda. Depois ouvi um piado forte e insistente vindo de um quarto dos fundos. Chegando lá, me deparei com um lindo passarinho de plumagem muito colorida que depois identifiquei como  um Tangará de Cabeça Azul,  que ficou a me olhar e piando sem receio ainda um bom tempo, para depois tomar o rumo dos Dois Irmãos. O milagre da vida não pára!



Sexta viajo pra São Paulo para a estréia do novo show de  Ana Carolina, assinado por Bia Lessa, que vem com uma concepção diferente e cheio de novidades legais. Hoje assisto ao último ensaio corrido. E, até o final do mês também, deve chegar às lojas o novo DVD  da Ana, uma superprodução dirigida por Monique Gardenberg, com fotografia de Lauro Escorel e cenário de Gringo Cardia.

Em função desse lançamento e de outros fatores importantes, meu disco só sairá em março. Em breve darei mais notícias.  

Boa continuação de semana. Beijones.



P. S.
  U  R  G  E  N  T  E



Recebi ontem o belo disco do meu amigo "Carlos Eduardo" Dudu Falcão . Hit maker de prima,  gravado por A a Z da MPB, Dudu  mostra suas canções de forma confessional, como se estivéssemos com ele, senta
dos a volta de um bom vinho. E o vinho é feito do sumo da sua delicadeza, das coisas que ele sabe, de sua crença e paciência. Produção sutil e inteligente de Max Viana. Belos arranjos de Roger Henri, intrumentação leve e 
chique, com destaque pro acordeão de Alessandro Kramer  Bebê (sempre ele!) Falarei melhor num próximo post.  Valeu Dudu! Parabéns!!!



Só no pedal!

sábado, 17 de outubro de 2009

BRATUQUES, RUMPILEZZ E AMIGOS NOTÁVEIS PARTE 1

TERÇA NO BRATUQUES


Nessa terça-feira rolará a quinta edição do  Projeto  Bratuques.  Com direção musical de meu querido irmão Gastão Villeroy (na foto abaixo) , esse projeto vem rolando desde o final de setembro. Todas as terças, Marco Lobo e banda recebem dois convidados: um cantor e um instrumentista. Nessa terça os convidados somos eu e Arthur Maia, além de Alessandro Kramer Bebê que vem pra reforçar a banda com seu acordeão miraculoso, o que significa que faremos uma milonga para alegria de quem gosta do ritmo. A música chama-se El Guión e é uma parceria com Don Grusin e Bebeto Alves. Fiz com Don a música em Los Angeles e depois aqui no Rio conclui a letra com Bebeto. Ainda cantarei OuroSão Sebastião e Majestade.



Sobre o outro convidado, pra quem não está lembrado, Arthur Maia é baixista, compositor e produtor, que atua há muitos anos com Gilberto Gil e já integrou as bandas de Djavan, Milton Nascimento, Ivan Lins e Luis Melodia, entre outros. Recentemente produziu o disco Madrugada de Mart’nália. Em todo lugar que vou fora do Brasil os músicos sempre me perguntam pelo Arthur. É que além de excelente músico, o cara é muito comunicativo e simpático. O Guinga disse que ele é primo do Romário. E é verdade que tem certa semelhança física e sua facilidade pra tocar lembra muito a do baixinho a empurrar a bola pro fundo do gol. Segue o link:

 http://www.arthurmaia.com.br



Depois do show vamos sair pro abraço, com fotos e autógrafos nos discos.

O projeto segue até o final de novembro com a seguinte programação:

 27/10 – Maria Gadu & Gabriel Grossi

03/11 – Moraes Moreira & Armandinho

10/11 – Rita Ribeiro & Carlos Malta

17/11 – Chico César & Gisbranco

24/11 – Margareth Menezes & Saul Barbosa

Sala Municipal Baden Powell – Av. N.Sra. Copacabana, 360

Informações: 2262-2581 / 2215-5172 (de 2ª a 6ª, de 10 às 18

                                    

   LETIERES LEITE & ORKESTRA RUMPILEZZ 

Lançamento do CD em São Paulo

Imperdível!



Criada pelo compositor, arranjador e saxofonista Letieres Leite, a Orkestra (com K como no original grego) é um grupo de sopros e percussão, no qual as composições e os arranjos são concebidos a partir das claves e desenhos rítmicos do universo percussivo baiano.

Com as composições inspiradas na cultura ritmica do centro de Salvador, nos toques de orixás da música sacra afro-baiana, nas grandes agremiações percussivas, como o Ilê Aiyê, Olodum e nos Sambas do Recôncavo, a nova amálgama é repleta de significações, sensibilidade rítmica e uma  influência jazzística, onde as improvisações também marcam presença, com uma formação próxima das big bands e concebida em um estilo atual.

A Orkestra tem em seu nome a representatividade dos três atabaques do candomblé: o Rum, o Rumpi e o Lé, acrescido das letras ZZ da palavra Jazz.

  Gravado no Teatro Castro Alves (ao vivo, a portas fechadas) o álbum foi mixado nos EUA por Joe Ferla, vencedor do Grammy, produtor e engenheiro de som de grandes artistas como John Meyer, Natalie Cole, John Scolfied, Brecker Brothers, dentre outros. O CD irá sair pelos selos Biscoito Fino e Caco Discos.

Conheci Letieres por volta de  1983, em Porto Alegre, onde ele passou uma temporada de dois ou três anos. Sua presença na cidade foi marcante, montou grupos com diferentes formações, acompanhou e produziu cantores, escreveu arranjos e ensinou música pra muita gente.   Sempre  viajando pela música saiu de Porto Alegre e foi morar em Zurich e Viena, voltando depois pra sua Bahia natal. No final dos anos 90, o reeencontrei  dirigindo o show de Ivete Sangalo, que me chamou pra subir no trio e cantar com ela Felicidade do Lupicínio Rodrigues.  Paralelo à sua atuação com Ivete, Letieres foi desenvolvendo esse precioso trabalho que mistura os ritmos de candomblé com  orquestra de sopros, um dos mais originais e estimulantes trabalhos de música instrumental que tenho visto nos últimos tempos!


Show de lançamento em São Paulo     

Sábado,31 de Outubro 21:00 hs. e Domingo 1 de Novembro, 18:00 hs.

Sesc Vila Mariana- R. Pelotas, 141 - Vila Mariana - São Paulo - SP Tel: (11) 5080-3000



 BROTHERS OF BRAZIL




Algo que parecia improvável aconteceu. Dois irmãos com propostas musicais completamente diferentes resolveram fazer uma dupla e deu certo! Tratam-se dos filhos de Eduardo Suplicy, o senador sério e, ao mesmo tempo, boa praça que, a pedido de Sabrina Sato, desfilou pelo Congresso portando uma sunga de superhomem sobre as calças.

 Supla, o mais velho,  surgiu no cenário do rock dos anos 80 com pose punk e semelhanças com Billy Idol. Nunca acompanhei de perto sua carreira mas sempre admirei sua perseverança no personagem que criou (e se transformou) não só para fazer música, mas também para definir como seu estilo de vida.   João Suplicy também teve influência roqueira mais explicitamente de rocabilly, mas  direcionou sua carreira para a MPB com ênfase em samba, samba rock e outras bossas. Não é a toa que fez para a gravadora Albatroz de Roberto Menescal um disco e depois um show chamado Elvis em Bossa, com direção de Luiz Carlos Mielle, onde congregava com maestria dois gêneros aparentemente distintos.  

Há pouco mais de um ano, João  e  Supla juntaram as forças e, sob o nome de Brothers of Brazil,   montaram um show conjunto que vem divertindo platéias do Brasil, EUA e Europa. Eu assisti no ano passado no Posto 8 e curti muito, porque além de musicalmente interessante há os aspectos performáticos de ambos, cada um no seu estilo. Eles brigam mais que os irmãos do Oasis, discutem no palco e nunca se sabe se é a sério ou se apenas faz parte da performance artística. Acho que nem eles sabem, deve ser as duas coisas. Uma de suas músicas Samba around the clock (parafraseando a clássica Rock around de Clock de Bill Haley) ganhou um clipe, cujo link segue logo abaixo. Pra se divertir: 


http://www.youtube.com/watch?v=3c9nAHVg-HQ&feature=player_profilepage


MAIS UMA VEZ GADU 

(na corrente do Nemo)



O show de Maria Gadu está cada vez melhor.  É muito bom ver os progressos na carreira de um artista e a Gadu venho acompanhando bem de pertinho e ajudando a divulgar aqui no blog, no facebook e no boca a boca. Sexta fui no Teatro Rival e, no bate papo do camarim, sua mãe, falando comigo e nossa amiga Juliana, disse que havíamos ajudado a parir essa história, porque estávamos desde o comecinho nos shows do Cinemathèque. Na verdade, a primeira vez que vi a Gadu foi num sarau organizado por Dudu Falcão na casa da estilista Cristina Cordeiro, ela sentadinha em posição de yogue (sua marca registrada), ligeiramente tímida, cantando suas canções de forma muito carismática.  Depois vi  umas 4 vezes no Cinemathèque, 2 no Posto 8, uma no Zozo e agora num Rival completamente lotado. A banda está com uma sonoridade incrível, o som cheio sem ser pesado, com uma timbragem muito especial que faz ressaltar ainda mais a voz da Maria. Em breve deve rolar Circo Voador. Lembrando que a Gadu está com uma música na novela das 6 e outra na das 8. Não lembro de outro artista que tenha aparecido cantando, num mesmo período,  em duas novelas da Globo. Isso só reforça o que disse minha amiga Luciana Pessanha:  A Maria Gadu pegou a corrente do Nemo.

 

CHICO BOSCO ORIENTANDO



Meu amigo Francisco Bosco, escritor, filósofo e compositor está numa viagem com sua mulher, a também escritora e roteirista Antonia Pelegrino pelo Oriente. Já  estiveram na China e no Tibet. Quando ele voltar vou pedir para que dê uma canja aqui no blog contando um pouco do seu périplo e publicando algumas fotos. Estou certo de que com a sua imaginação, sua capacidade de concatenar idéias somadas à experiência que está vivendo, poderá elaborar textos muito nutritivos e interessantes pra dividir conosco.


UM TAL DOUTOR COLOMBO



Outra pessoa que em breve deve escrever aqui é meu grande amigo Dr. Colombo Cruz, clínico geral com ênfase em medicina preventiva e ortomolecular. Ele atende em Niterói, mas no começo do ano vai abrir uma sala no Rio, provavelmente em Botafogo.  

Conheci o Colombo quando eu estava começando minha carreira musical e via seus cartazes espalhados por Porto Alegre anunciando o lançamento de seu primeiro disco. Depois de alguns meses aconteceu o tão esperado show e foi muito bom. Colombo tinha belas músicas, cantava bem e se mostrava solto no palco, arrebatando o público e a crítica. Apesar de desconhecido em Porto Alegre, seu marketing foi tão bom que o teatro da Assembléia, com capacidade para mil pessoas, estava lotado. 

Na época ele morava em Santa Maria, uma cidade universitária, situada nos pampas, onde estava concluindo o curso de Medicina enquanto desenvolvia também a carreira de músico. Depois de sua formatura, veio para o Rio, onde se estabeleceu com a família e foi trabalhar na ABBR (Associação Brasileira Beneficiente de Reablilitação), um hospital de reabilitação localizado na Av Jardim Botânico, onde, entre outros pacientes,  cuidou da saúde de João do Valle, o célebre compositor maranhense autor de Carcará que fez com Zé Keti e Nara Leão (depois sustituída por Maria Bethânia, que estreava brilhantemente) o show Opinião nos anos 60. 

No final dos anos 80, João do Valle se reestabelecia de um acidente vascular cerebral e ficou sob os cuidados do dr. Colombo durante 1 ano e meio. Quando se recuperou e teve alta,  Chico Buarque organizou um show no Teatro João Caetano para arrecadar fundos para o amigo. Muitos artistas participaram, entre eles o próprio Chico, Beth Carvalho, Fagner, Zé Ramalho, Gonzaguinha, Elba Ramalho, e Alcione. Havia um apresentador que anunciava cada atração da noite. No final do show ele fez um suspense dizendo que chamaria a pessoa que havia ajudado João do Valle a se recuperar e anunciou Colombo Cruz que entrou a rigor (todo de branco) e foi recebido de pé pela platéia que o aplaudia. Todos ficaram surpresos que além de tudo o doutor era compositor e cantava muito bem.

Anos depois, Colombo foi morar em Niterói onde tem uma grande clientela. Recentemente fui ao seu consultório, pois precisava perder 7Kg em 40 dias pra participar do DVD de Ana Carolina. Seguindo os conselhos do doutor, mudei de alimentação, parei de comer carne vermelha, derivados de leite, doces,  pão branco, e eliminei definitivamente as bebidas alcóolicas. Associando a essa dieta uma rotina de exercícios diários, cheguei ao dia da gravação com 8 kg a menos e gozando de muita saúde. Na sequência,  ainda perdi mais dois, contabilizando, em 2 meses,  10 kilos perdidos e uma massa muscular muito mais definida. A boa oxigenação e uma alimentação balanceada livre toxinas e produtos artificiais melhoram muito nossa disposição,  o corpo, a mente e as emoções ficam bem mais saudáveis. Isso é o que almeja a Medicina preventiva praticada pelo dr. Colombo.

Quando perguntado sobre em que área trabalha, o doutor diz que é médico. Se insistem questionando sua especialidade, ele responde que é medicina, pois a seu ver  o organismo é um sistema único, onde todos órgãos, glândulas e outras partes e funções tem uma relação de completa interdependência. Parece óbvio, mas muitas vezes o especialista não leva em consideração esse fato.  Essa visão abrangente o credencia como um médico holístico, em concordância com outras ciências que evoluem nesse sentido, agregando os valores acadêmicos ocidentais com a sabedoria milenar do Oriente.


UMA PEDRINHA FICOU PELO CAMINHO



Com a disciplina que adotei nessa minha nova fase de vida, fui expurgando excessos e toxinas e percebi que também me livrava de coisas ligadas ao meu passado, não só do ponto vista físico mas também certos pensamentos e emoções que já não tinham mais serventia.  O processo de limpeza foi e está sendo tão intenso que nos últimos 2 dias eliminei até mesmo duas pedrinhas que carregava há anos no rim direito, obtidas em minhas frequentes e gastronomicamente intensas estadas  na França, onde  o hábito de comer queijo após as refeições é uma tradição irrecusável e a água é tão calcária a ponto de deixar leves camadas de cálcio na louça secada no escorredor.  

A última pedrinha  deu seu alarme as 5 da manhã desse domingo. Levantei, tomei um Buscopan e procurei me distrair, lendo, tocando piano e escrevendo no computador.  Não adiantou. Tomei água, outro Buscopan e um banho.  Mas a dor não cedeu, então, pelas 8 horas, calmamente fiz uma malinha, peguei o carro e rumei pra Clínica São Vicente. No caminho a dor aumentou, como costuma aumentar quando a pedra sai do rim e entra no uretér. Mas não perdi a calma e, apesar do  engarrafamento que ralentava a Marquês de São Vicente em virtude das provas da PUC, cheguei ao meu destino pelas 8:30.  

Depois de examinado e medicado, expeli a danada e me senti novinho em folha. Dormi um pouco pra recuperar a noite interrompida e sai pra pedalar. Fiz uns 20 km, malhei nos aparelhos da Lagoa e complementei com alguns exercícios de Yoga. 

À noite, com a cabeça oxigenada, escrevi as partituras pro ensaio de amanhã e ainda arrumei um tempinho pra blogar.

Foi bom, valeu!  As pedras ficaram no caminho,  eu passei, passarinho.*

E o casal de sanhaços que sumira da minha varanda voltou de mansinho.  Bom sinal!

Boa semana a todos.

Abraçones e beijones.


P.S.  Sobre Twitter:  não sou de fato um twitteiro, não costumo entrar muito lá. Não dá tempo de fazer mais isso, por essa razão  não sigo quase ninguém e só escrevo e respondo de vez em quando. Agradeço a compreensão.

 * Parafraseando Mario Quintana que escreveu: 

Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão... Eu passarinho