terça-feira, 25 de outubro de 2011

SAUDADES




Tu me manques, na tradução literal, você me faz falta, é a forma de os franceses e demais povos francófonos expressarem as saudades que sentem de alguém. Não existe uma palavra específica para isso na lingua francesa. A que mais se aproxima é nostalgie, que já tem seu correspondente, nostalgia, em português.

Em italiano se diz “tu mi manchi”, com a mesma conotação do francês.
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I miss you, diria-se em inglês. Sendo que a palavra “miss” também contém em si o significado de perda. Portanto, assim como se traduz por “eu sinto sua falta”, poderia, em um caso mais extremo, ser a tradução de um sentimento de algo perdido: eu perco você; sinto que estou lhe perdendo.

Em espanhol, uma das maneiras de comunicar esse sentimento a alguém é dizendo: Yo te extraño. Sendo que a tradução literal para o português da palavra extraño é estranho. Então a falta, para os que falam a lingua de castella, pode ser sentida como uma espécie de estranheza. Mas minha amiga Cami, que mora em Barcelona me ensinou a dizer "te echo de menos" , que é como se fala mais informalmente da falta que alguém nos faz. A palavra mais próxima a saudade na lingua castellana é añoranza.

Mas durante muito tempo. ouvi falar que saudade é uma palavra que só existe em português e que, portanto expressa um sentimento tipicamente lusófono. Aqui nos trópicos, com certeza saudade adquiriu novas cores. Não basta apenas a palavra, pois que ela é um signo morto se não há um espírito a vivificá-la. E nossa maneira de viver as coisas é bem diversa da de um europeu.

Os africanos, ao chegarem às Américas na condição de escravos, sofriam de um sentimento denominado Banzo. Banzo é mais do que saudade. É uma dor específica gerada pela perda de muitas coisas. Um estranhamento de uma terra e uma condição novas que não foram frutos de uma escolha. Perderam sua liberdade em primeiro lugar, foram, por assim dizer, privados do seu livre arbítrio.

Distanciaram-se de suas famílias, amigos, costumes, comidas, cheiros, gostos, cores, animais, perigos, pores de sol, para virem aqui servir de maneira forçada tendo sua dignidade ofendida.

Portanto o banzo é um sentimento resultante de uma perda, de uma falta, de uma nostalgia, de uma estranheza, de uma saudade. O banzo abarca todas as palavras que possam expressar esse vazio que em cada lingua encontramos parcialmente expresso de uma forma.
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Muitas vezes encontro um(a) amigo(a) e, ao abraçá-lo(a) percebo que sentia saudades daquele abraço, daquela voz, daquela pessoa. E essa saudade muitas vezes inclui situacões vividas em comum, mas que estavam adormecidas até o momento daquele encontro, quando são ativados uma gama de sentimentos, que me levam a dizer: - que saudade.!
Ou - eu estava com saudades de você e não sabia.

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A e B foram namorados durante 2 anos. Depois de separados mantiveram uma distância regulamentar, para se preservarem, mas sem hostilidades. Ambos tiveram novos casos, novos amores ou quase isso.

Um dia B envia um torpedo: - Saudades.

O que isso quer dizer, pergunta-se A? Por que essa mensagem agora? Será que ele(a) ainda gosta de mim? Será que voltou aquele sentimento?

E A investiga em si mesmo(a) o que sobrou daquele amor, se ainda teria desejo, se teria forças para recomeçar. Pensa no que pode haver de bom e no que pode haver de embaraçoso em um reencontro, em um beijo ou, ao se verem, novamente nus, um diante do outro.

Mas percebe que também sente saudades e, depois de muito pensar, responde: - Saudades também Beijos.

B a principio, diante da demora em obter uma resposta, arrepende-se de ter enviado aquela mensagem. Depois pensa que foi sincero(a) e que isso foi bom. Afinal também não sabia que espécie de saudades sentia. Apenas sentia. Mas não queria que A pensasse que ele(a) estaria pleitando uma volta ou nem mesmo um reencontro. Os dias se passam e não se vêem mais, e aquela saudade de vez em quando volta a dar seus sinais.

Às vezes, a saudade que sentimos não é exatamente de alguém, mas de uma situação ou um conjunto de situacões. Muitas vezes essa saudade é de nós mesmos. Do jeito que éramos em um determinado momento.

Saudades de tudo, de certas manhãs, de uma luz incindindo na cama, de uma inocência, da forma de sentir o amor, da posição que ocupávamos na vida de alguém, da importância que nos era dada.

Muito egoísta? Sim talvez ... Mas quem sabe essa não seja a forma mais honesta de se pensar, pois não tenho nenhuma certeza sobre o outro.

O outro é alguém que, de certa forma, inventei. Sim, existe de fato essa pessoa que é feita de presenças e ausências, que me abraça e se afasta, que tem um cheiro, que beija do seu jeito, que tem gosto, que divide momentos, que me conta suas coisas, que me dá carinho e me traz problemas e soluções.

Mas sei que muito desse outro foi construído antes em mim e depois projetado em outra pessoa. E, em um dia em que ela se mostrar em desacordo com minhas expectativas, corro o risco de dizer:
- você me decepcionou!

Mas como posso atribuir ao outro algo que eu mesmo inventei?

O ingênuo, o desavisado, muitas vezes não sabe que está inventando, e caba acreditando em sua própria fábula, pois que o outro parece dar todos sinais de que realmente é daquela forma. Mas, muitas vezes, é apenas um desejo tão grande de encontrar aquilo que chama de “minha cara metade” que não consegue enxergar as coisas de outra maneira.

Às vezes isso ocorre dentro de um acordo tácito. Cada um sabe o quanto está inventando e sendo inventado pelo outro. E deixa isso ocorrer e cumpre o seu papel, muitas vezes por querer corresponder, porque também precisa de alguém, porque se julga capaz de ser daquela forma, pelo menos por um tempo, até que as coisas tomem outro rumo, até que o amor seja incontornável e fale mais alto, até que tudo se defina ou que definhe.

Freud dizia que uma pessoa só tem duas possibilidades de amar: ou a quem lhe cuida ou a si próprio.

Quem ama a quem lhe cuida vai procurar uma pessoa com esses atributos para a ela se aninhar, projetando nessa pessoa as qualidades de protetor, de provedor, de compreensivo, de pai, ou de mãe e, se tiver a sorte de encontrar uma pessoa que tenha naturalmente essas características, poderão ambos desfrutar de uma relação complementar que seja duradoura. Em caso contrário, alguém sairá extenuado por falta ou por excesso.

Quem ama a si mesmo, vai procurar alguém que corresponda ao seu narciso. E que deverá ser, não um provedor, mas uma pessoa com qualidades estéticas ou intelectuais, ou quaisquer outras que correspondam à imagem que aquela primeira tem de si mesma.

Partindo desse princípio é que se criam as tais projeções de que falei acima.

Mas não quero me estender sobre os esquemas freudianos, até porque não refleti o suficiente a respeito para tirar alguma conclusão.

Voltemos então às saudades de A e de B.

Ambos a sentem, mas ambos também temem que sua saudade seja mal interpretada.

- E seu eu convidá-lo(a) para uma caminhada,para um jantar, para tomar um vinho, será que vai pensar que estou tentando reconquistá-lo(a)? Por que me privo da amizade de alguém a quem quero bem apenas para não incindir em riscos de ser mal interpretado?

É tão bom quando essas coisas ficam totalmente resolvidas. Talvez uma caminhada, um suco, um café pudessem levar a uma conversa em que essas coisas ficassem, de uma vez por todas, resolvidas.

Mas A ou B, pensam que pode até soar grosseiro dizer: - Ei, tenho saudades de você, mas não projeto que a gente volte a ser um casal, nem que tenhamos um revival.

Tenho saudade da pessoa, do sorriso, das conversas, das opiniões, da amizade, da cumplicidade. Mas não tenho saudade do namorado(a), do marido (esposa). Como colocar essas coisas em prática? O melhor é que coloquemos enquanto temos tempo para isso.

E enquanto essa saudade não é saciada cantemos com Peninha: Saudade até que é bom, é melhor que caminhar vazio …

6 comentários:

MADAMERAMANDA disse...

SAUDADES DE Ti AQUI NO BLOGGGGGG
GRANDE RETORNOOOOO
BJUSSS

Lina disse...

Perfeita descrição de uma sensação que nos assola, que não sabemos resolver, porém também não conseguimos ou queremos deixar passar.
Beijos

Hannaly Oliveira disse...

Estou lendo o Livro Tudo Valeu a Pena, de Zibia Gasparetto, psicografado pelo espírito Lucius. Entre outros assuntos, o livro trata da paixão descomedida de um jovem, amante de uma mulher casada por interesse com um homem muito rico e bem mais velho. A cada dia o rapaz se sentia mais preso aos encantos dela, e ela se mostrava cada dia mais imprevisivel.. algumas vezes amorosa, submissa, outras inteligente, esquiva, arredia, enfim.. era exatamente isso que despertava seu interesse, a coragem que ela tinha de simplesmente fazer o que quiser. Ele apreciava sua coragem, sua ousadia, e projetava nela aquilo que, na verdade, ele gostaria de ser. Nao era paixao, era admiração. No fim das contas, ela foge com o inimigo que tentou mata-los (o marido e o amante) e o rapaz toma isso como uma grande decepçao.. na verdade, a culpa é apenasmente dele. Se parasse de projetar nos outros o que gostaria de ser e batalhasse para se tornar o que deseja, simplesmente o seria e não sofreria por projetar seus desejos em alguém que nao tem a obrigação de lhe dar o retorno que espera. X Alguns filosofos dizem que você não ama outra pessoa. Você ama o que tem de você naquela pessoa, as coisas com as quais vc se identifica.. é como se fosse um espelho, e acho que esa é a grande realidade.. passei a esperar menos e tenho sido mais feliz e mais livre do medo de decepcionar-me.. afinal, pra quem nao esperava nada, o que vier é lucro! Beijones!

Nell disse...

Gosto de sentir essa saudade de outros tempos, de alguns cheiros, de mim mesma, de outras pessoas. Gosto de saudade boa, de outros amores, e até de algumas dores que soube enfim resolver. Não que as queira novamente, mas elas foram importantes em minha
(re)construção. Já a saudade de A e B (C, D...), estas, penso que, ao menos para mim, se transformaram em doces lembranças, em suspiros da memória. Talvez. *Ville, quero tanto lhe contar uma história minha, um pedaço de minha vida com a sua trilha sonora... Me manda seu email? Beijos. Nell (nelci_santos_oliveira@hotmail.com)

Tainara Cláudia disse...

Olha, o bom filho a casa torna. rsrs
Que bom q eu vc voltou a postar aqui no blog.
Gosto de comentar no blog, pq foi aqui onde tudo começou né? Apesar da gente trocar essa ideias todas e ainda não se conhecer pessoalmente, mais isso com o tempo vai acontecer tbm.

Mais vamos ao comentário sobre o texto.

Como diz em La Critique: "A saudade não é salgada não, a saudade é doce"
Eu concordo com essa frase pq sempre sentimos falta de bons momentos vividos com os ex-amores ou amigos q agora são distantes.
Saudade pode ser tbm de coisas ou de acontecimentos q tocaram o nosso coração.
Saudade seria o alento para as dores ou dúvidas atuais, aquilo q tivemos no passado e nos fez felizes e q queremos agora no presente.

Como Lenine e o Dudu Falcão dizem em É o que me interessa: "Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
de um tempo que ainda não passou"
Pode não ser esse o verdadeiro sentido do verso da música, mais acredito que temos saudades tbm do nosso futuro e principalmente da nossa condição divina.
Saudade do futuro seria meio q uma ilusão q criamos pelo fato de estarmos sempre sonhando, mais eu acredito q essa saudade é como uma chama para nossas esperanças. É um sentimento interno de q o fututo é agora.
E saudade da nosso Eu divino é aquele vazio q as vezes mesmo estando felizes, sentimos. É na maior parte um sentimento ruim, mais faz a gente perceber q falta na gente uma coisa tão grande q só poderia ser Deus. (isso é uma experiência minha)

Bem, falei um pouco do que penso, mais pode ser q eu volte aqui depois de pensar nisso um pouco mais.

Beijones para todos.

Tots, beijos e abraços e continua postando no blog. Por favor!!!

Mirian B disse...

As vezes tenho uma imensa saudades não sei do que, das coisas que não vivi, de algo não senti...Não sei, mas é isso que a saudade tem de especial: ela permite a fantasia, deixa o pensamento voar. Nosso coração tem saudades e ponto. Quando é possível identificar até dá pra matar, mas tem vezes que é uma saudade solitária, sem vínculos, sem referência, sem resposta, sem nada. É uma purinha, inominada, mas daquelas de pegada forte, que se enrosca na gente e não ecorrega por nada, uma segunda pele. Daí não adianta procurar o sentido,tem que deixar rolar até travestir-se de outra coisa qualquer de que se possa curar, porque, meu nêgo, dessa saudade não tem como...então deixa ficar e use como inspiração junto com muito suor.
É isso.