
Hoje tem Sessão de Gala de Sonhos Roubados no Cine Odeon, com direito a festinha depois. Vai ser a primeira vez que verei o filme em tela grande, com o som mixado. A música que compusemos, João Nabuco, Eugenio Dale e eu, abre e fecha o filme.
Dirigido por Sandra Werneck, Sonhos Roubados é baseado no livro As Meninas da Esquina, de Eliane Trindade, e conta a história de três garotas da periferia do Rio de Janeiro, vividas pelas atrizes Nanda Costa, Amanda Diniz e Kika Farias. Completam o elenco Marieta Severo, Daniel Dantas, Ângelo Antonio, Zezeh Barbosa e MV Bill.
Depois de haver acompanhado por um ano a vida de adolescentes grávidas no documentário "Meninas", a diretora Sandra Werneck, que já deixara sua assinatura em Cazuza , Amores Possíveis e Pequeno Dicionário Amoroso, voltou ao tema da juventude conturbada na periferia das cidades grandes, mostrando a dura realidade de famílias desorganizadas, onde muitas vezes as adolescentes são vítimas de violência doméstica e engravidam precocemente sem muitas oportunidades de melhorarem suas vidas. As três meninas nos papéis principais dão muito bem conta do recado.
Algumas semanas atrás, numa festa da Globo, conheci Nanda Costa, que faz a protagonista e agora está atuando na novela Viver a Vida. Ela tem um grande talento e carisma, além de ser divertida e dançar muito bem todos os gêneros que tocam na pista, o funk, o samba, a salsa e a música pop de um modo geral. Ainda vai dar muito o que falar! Anotem aí.

O show do Projeto Bratuques realizado ontem na Sala Baden Powell foi bárbaro. Banda afiadíssima e Marco Lobo mandando muito bem na linha de frente, tiveram como convidados Toninho Horta, Ná Ozzetti e Alessandro Kramer Bebê (já muito falado nessas páginas). Ná mandou bem cantando parte do repertório de seu novo disco dedicado a Carmem Miranda. Bebê arrasou nos solos improvisados e melodias. Toninho Horta, mais uma vez, foi extraordinário!
Para quem ainda não sabe, Toninho tem sido uma de minhas maiores influências musicais. Foi ouvindo sua música Beijo Partido, na voz de Milton Nascimento que, aos 14 anos de idade, resolvi dedicar-me à arte de compor. Depois passei a tirar suas músicas, tarefa nada fácil devido à complexidade harmonica e a sofisticação de seu violão. Ele é um dos grandes do mundo, uma referência para os maiores músicos do planeta. Não há quem não o mencione nos EUA, Europa e Ásia.

Houve um ano em que eu estava em tournee pela Europa e em toda cidade que passava, alguém me dizia: quem esteve aqui há uma semana atrás foi Toninho Horta. E assim foi sucessivamente acontecendo em cidades da Italia, Áustria, Alemanha e Inglaterra. Eu sempre me apresentava nos lugares uma semana após a passagem de Toninho pelo mesmo lugar. Uma coincidência bem significativa (sincronicidade?), tendo em conta a importância que ele teve e tem pra mim como músico. Dava-me a sensação de que estava fazendo a coisa certa. Quando cheguei na França ganhei um disco de uma cantora belga. Ao ouvir, identifiquei em 2 faixas um violão muito familiar e sofisticado. Achei que se não fosse o Toninho deveria ser um clone, fui olhar a ficha técnica e era ele. Não é qualquer violonista que tem uma marca pessoal tão forte a ponto de ter seu toque reconhecido no meio de uma música tão complexa em instrumentação.
Alguns anos depois estava na ilha de Maui no Hawaii e ao entrar numa casa de shows chamada Casanova pensei: Ah aqui em Maui o Toninho não esteve. Logo depois vi numa parade um poster seu com uma dedicatória assinada que dizia mais ou menos assim: To my brothers of Casanova with friendship, Toninho Horta.
Mais uma passagem de tempo e finalmente o encontrei em Los Angeles durante a cerimônia do Grammy Latino onde contei-lhe toda essa aventura. Quem quiser saber mais desse grande músico seguem os links:
http://www.toninhohorta.art.br
http://www.myspace.com/toninhohorta
http://www.alessandrokramer.com.br
Saí da Baden Powell e fui com Bebê, ao Zozo, nova casa de espetáculos localizada ao lado do bondinho do Pão de Açúcar pegar o ultimo set do show de Hamilton de Holanda.
Hamilton é outro gênio! Nascido em 1977, no Rio, no bairro de São Cristóvão, mudou-se com a família para a Capital Federal no ano de seu primeiro aniversário. Sua primeira apresentação foi aos 3 anos de idade tocando escaleta com seu pai e seu irmão no Clube do Choro de Brasília. Com seis anos fez seu primeiro show tocando bandolim. Tendo também estudado violino e violão, fez sua primeira música, Chorinho pra Pernambuco, aos 10 anos de idade. Também se dedicou a outros gêneros musicais, tendo formado na adolescência um grupo de rock chamado Os Entregadores de Pizza. Depois estudou Composição na Universidade de Brasília, escrevendo ao final do curso um Concerto para Bandolim e Orquestra. De lá prá cá tornou-se um dos mais importantes nomes da moderna música instrumental brasileira, realizando importantes tournês nos quatro cantos do mundo.
mais infos: http://www.hamiltondeholanda.com
Quando chegamos ao Zozo, Mariana Ximenes que, muito querida, me falou também gostar de saraus, estava declamando poemas ao som do bandolim de Hamilton. No seu repertório, pérolas de Ferreira Gullar, Cecília Meirelles, Pablo Neruda e Manoel de Barros, de quem ficou a frase: Não saio de dentro de mim nem pra pescar .
Depois a banda voltou com Daniel Santiago (outra figurinha que está sempre no foco da nossa “Câmera”) , Gabriel Grossi (idem), Bruno Aguilar no baixo e o paulista Alex Buck na bateria, fazendo um repertório bem brasileiro, incluindo temas de Hermeto Paschoal (que teve canja espetacular do Bebê no acordeão).
Então Hamilton chamou Mariene de Castro, que estava na platéia pra dar uma canja cantando Dorival Caimmy. Que voz que ela tem! Estrela na Bahia, Mariene ainda não é muito conhecida nos lados de cá. Veio recentemente a convite de Beth Carvalho participar da gravação do DVD da madrinha do samba e, segundo dizem, arrasou. Procurem se informar, porque cantando samba de roda não tem pra ninguém. Mariene é filha de Oxum e linda como sua mãe Orixá, vestida em tons dourados que lhe caem muito bem, com uma presença sensual no palco e uma voz grave e ao mesmo tempo muito feminina. Essa moça é realmente um encanto. Nos conhecemos há uns 4 anos atrás, quando ela ainda era casada com meu parceiro, o compositor Jota Veloso, filho de Mabel Veloso que vem a ser irmã de Caetano e Bethânia. É de Jota a música Santo Antonio que abre o disco Brasileirinho de sua tia Maria. Em 2006, Mariene chamou-me pra participar de seu show em Salvador no dia 2 de fevereiro, dia de Yemanjá. Cantamos Garganta e outras cositas más. Foi muito bom reencontrá-la ontem. Hoje voltou pra Bahia mas sua presenca inspiradora ficou guardada no meu coração.
http://www.marienedecastro.com.br
Semana que vem o Bratuques segue com Jorge Vercilo e Torquato Mariano, dia 13 com Milton Nascimento e dia 20 faço minha apresentação com Artur Maia. Ah! Preciso esclarecer uma coisa. Não vai dar pra cantar 30 canções, como rolou em São Paulo, pois nesse projeto faço uma participação no show de Marco Lobo, onde cada convidado faz 4 músicas. Nem sei se lanço aqui a idéia de se elegerem as 4 músicas através do blog, pois como o Bebê também vai participar é certo que faremos pelo menos uma milonga, ou El Guión (ai ai ai) ou Velas Pra Todos Os santos. Que outras 3 deveriam rolar?
PARTE II
No dia em que participei do show do Lokua Kanza encontrei Tamy, uma cantora capixaba de quem falarei outro dia, que tem um disco muito bacana, bem produzido e com músicas próprias. Ela apresentou-me Dani Ramiris uma antropóloga que, aos 16 anos, após de ler O Ser e o Nada de Jean Paul Sartre, saiu de casa e foi para Bélgica num daqueles intercâmbios de estudo. Não voltou mais. Formou-se em Antropologia e saiu pelo mundo, a colocar sua lente sobre o tecido de outras culturas, no Camboja, Tailândia, Índia, Laos, Nepal e Cashimira, entre outros países. Retornou a Europa para dar sequência aos seus estudos, fazendo mestrado em Antropologia Social na cidade de Coimbra. Há três anos voltou a morar no Brasil e agora trabalha como Coordenadora de Responsabiliddade Social da Transpetro, viajando todo país para prestar assistência em mais de 60 comunidades.
Após o show fomos jantar e aproveitei pra aprender um pouco mais sobre a sua especialidade. Ela falou-me muito de um cara chamado Cifford Geertz de quem me aconselhou o livro A Interpretação das Culturas, onde seu autor liberta-se do estruturalismo de Claude Lewis Strauss para ir em busca dos significados defendendo um conceito essencialmente semiótico de cultura.
Como Max Weber, Geertz acredita que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu e que compõem a sua cultura, cuja análise é realizada de forma intepretativa.
Agora, Dani me fala que seu novo mentor intelectual é James Fernandez (Jim Fernandez no meio antropológico), que justamente mescla o estruturalismo de Lewis Strauss com o método de interpretação de Geertz aplicado às teias de cultura. Esse é para mim um universo ainda a descobrir. Estou dando os primeiros passos lendo esse livro recém recomendado, pesquisando na internet e dialogando com Dani, que tem sido paciente em introduzir-me nesse mundo novo.
Mas que mais admiro em Dani Ramiris é sua coragem e determinação de ganhar mundo sozinha, de forma independente. Vê-se em sua voz um quê de mulher madura, resolvida, apesar de contar com apenas 25 anos. Uma pessoa assim me fascina.
Isso me fez pensar na companheira de existência (e de existencialismo) do já citado Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, que dedicou volumosas e significativas páginas e atitudes em favor da emancipação das mulheres. O seu livro O Segundo Sexo, lançado em 1949, foi referência para as feministas e parmanece uma leitura importante nos dias de hoje. Foi em boa parte graças a ela que as mulheres comecaram a tomar o lugar de destaque que ocupam na sociedade ocidental contemporânea. A sua argumentação cuidadosa e as referências bem situadas garantem a força textual desse livro até nossa atualidade. Segue um trechinho onde muita gente corre o risco de se reconhecer:
A mulher está às voltas com uma realidade mágica [...]. Em vez de assumir sua existência, contempla o céu ,a pura ideia de seu destino; em vez de agir, ergue sua estátua no imaginário; em vez de raciocinar, sonha."
Quem quiser obter mais informações sobre existencialismo, ainda que superficialmente, a Wikipedia dá de mão beijada a sua definição, autores principais, fontes de inspiração e frases conceituais, entre outros conhecimentos. Eu particularmente sirvo-me de alguns conceitos, resolvo alguns probemas mas não balizo mais minha vida pela ótica existencialista. É uma boa forma de conhecimento e, por influência de Ramiris até comprei a versão orginal de L'être et le nèant.
Em tempo, o livro A Interpretação das Culturas, me foi presenteado pela bloggeira Juliana Presto na última sexta depois do show no Café Paon, em São Paulo. Obrigado Juliana.
Tenho que sair agora, mas vou continuar amanhã falando de mulheres e livros interessantes, começando pelo inteligente e divertido Como montar uma mulher-bomba, da escritora, jornalista e professora de comunicação Luciana Pessanha, que conheci na casa de meu amigo Francisco Bosco (outra figura constante aqui nessas páginas) no primeiro dia de 2009.
Até mais tarde.
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Nesse começo de quinta-feira, querendo buscar subsídios pra enriquecer meu texto, procurei em vão o livro de Luciana. Desde a descupinização, ocorrida meses atrás, ainda não arrumei minha estante e, todo dia, Cristina, minha fiel funcionária, repõe os livros que separei na mesma falta de ordem em que já se encontravam anteriormente.
Já que não achei o livro e que dormi poucas horas vou avivar meus pensamentos falando um pouco da autora. Luciana está seguidamente viajando, pro Caribe, pra Colômbia, pra conchinchina, contratada por alguma revista para cobrir acontecimentos , examinar potenciais turísticos ou simplesmente criar uma crônica a respeito desses lugares. Essa sua mobilidade a deixa com o olhar mais aberto, as antenas ligadas e a escrita enriquecida.
Há uns meses atrás, fez, para O Globo, uma entrevista interessante com Mauro Lima, diretor de Meu Nome Não É Johnny, sobre o novo projeto do cineasta que inclui uma pesquisa sobre as ramificações do tráfico de drogas no mundo, onde revelam-se as atuações criminosas da Cia e de políticos dos EUA, Brasil e outras Américas. Sua capacidade de extrair informações inovadas confirmou-se em um bate papo com Caetano Veloso que foi publicado no mesmo jornal, na época do lançamento de Zi e Zie.
Em suas aulas na Puc incita os alunos a criarem roteiros, impondo dificuldades temáticas e estéticas: restringe o uso de reticências e exclamações, pede economia nos adjetivos e advérbios e os textos, assim, vão ficando mais leves.
Essas qualidades literárias são reconhecíveis nos livros que Lu escreve. Essa sua qualificação a levou a ser recentemente sondada para atuar como ghost writer de uma celebridade, que por motivos éticos ela não quis me revelar o nome. Pra quem não sabe o que é um ghost writer, recomendo o livro Budapeste de Chico Buarque, que conta a história de um sujeito que empresta suas idéias e sua pena (quer dizer, o seu lap top) a um escritor de fachada.
Voltando ao nosso assunto, Como montar uma mulher-bomba é , como diz o subtítulo, um manual prático para terroristas emocionais. Na nota de abertura do livro, os leitores são informados de que o conteúdo que irão examinar fora elaborado por uma sumidade do mundo da semiótica, que não queria ver seu nome associado a um tratado tão mundano e perigosamente explosivo.
Com esse inteligente álibi, a autora discorre nas páginas seguintes sobre essa terrível arte da detonação do sexo feminino. Em cada um dos onze capítulos ela conta um episódio diferente, incluindo um dedicado a Medéia, a mulher bomba arquetípica, neta do Sol por parte de pai.
Ao final do livro, encontramos um posfácio interessantíssimo (sic) onde muita coisa se revela e onde se confirmam as habilidades criativas da escritora. Mais não posso falar, mas adianto que é um livro fácil de se encontrar nessas lojas como Argumento, Letras e Expressões e Travessa.
No dia em que adquiri o meu, simplesmente solicitei numa livraria: - vocês tem aquele livro da mulher bomba? e sem perguntar o nome do autor ou editora, a moça me trouxe um exemplar. Peguei um vôo pra São Paulo e rapidamente devorei o livro, tão saborosa é sua leitura.
Antes do manual explosivo, Luciana já tinha publicado um livro de contos chamado Ao Vivo, um livro de culinária, Receita Carioca, elaborado especialmente para o restaurante Gula Gula, do Rio e O Transponível Super Empty, uma genial história ilustrada feita em parceria José Carlos Lollo.
E assim vos deixo com essas inúmeras possibilidades musicais e de leitura. Boa pesquisa e boa diversão a todos.
Abraços
PS. O filme foi um sucesso e a música bateu direto no coração do público. Na festa que rolou depois no Cais do Oriente muita gente perguntava onde encontrar, enquanto o DJ a fazia rodar nas suas pick ups.