
O que nos acontece, aquilo que fazemos e pensamos, um fato marcante, um aprendizado, uma idéia aparentemente original, quantas vezes nos voltarão à memória durante a existência?
No último post, ao evocar as razões do nome de meu mais recente CD , acabei por reavivar lembranças que me estavam escondidas sob a seda do tempo. E, assim, acessei uma passagem importante ocorrida na infância.
Nessa etapa da vida, tudo é novo, tudo se descortina, começamos a desafiar os primeiros limites e a criar coragem para a conquista de novas metas e territórios.
Em minha família, somos três irmãos, dos quais sou o caçula. Até meus oito anos e meio, morávamos em São Gabriel, uma cidade situada no começo dos pampas e que contava na época, com cerca de 50 mil almas, como se costumava dizer.
Lembro de quando as questões de nascimento e morte, de finito e infinito, foram inauguradas em meu pensamento.
Meu tio Benedito morava no sobrado do Cine Vitória, cujo mezanino tinha saída para a escada que conduzia ao seu apartamento, situado no mesmo andar da cabine de projeção do cinema.
Recordo de, num domingo, sair da matiné e subir as escadas em direção ao apartamento do tio para conversar com Lúcia, minha prima mais velha, sobre aquelas questões que então me inquietavam.
Enquanto espichava as pernas nos degraus, olhando a escadaria, pensava no universo e o intuia como uma sucessão de círculos concêntricos, assim como são as órbitas dos planetas em torno do sol, ou como as camadas de uma casca de cebola. Só que sem, nunca, chegar a um fim.
Imaginava-me rumando à camada mais externa, na direção da expansão do Universo, onde poderia finalmente encontrar uma parede que o limitasse. Mas e do outro lado do muro o que haveria? O nada?
O nada me parecia ainda mais absurdo que o infinito.
Hoje penso que ambos constituem as duas faces do Absoluto, mas, naquele momento, a questão seguiu sem resposta. Minha prima não me ajudou, nem quis confirmar que somos gerados por uma trepada de nossos pais, mas admitiu que todos morremos um dia.
Eu devia contar com seis ou sete anos quando essas perguntas começaram a atacar-me sem trégua.
Muitas vezes, à noite, ficava com meus irmãos conversando baixinho e esperando que meus pais dormissem para sairmos da cama e aprontarmos alguma. Certa vez, permanecemos acordados, conversando até um pouco antes das cinco e daí resolvemos ir até a casa do vô pra tomarmos o primeiro mate com ele.
Morávamos no princípio de uma ladeira que terminava na ponte do Vacacaí, o rio que banha a cidade. A casa de meus avós ficava depois da Praça da Matriz , no sentido oposto ao do caminho do rio.
A distância a ser percorrida dava uns 15 minutos a passo de criança. Saímos bem agasalhados, pra enfrentar a madrugada de inverno, o frio gelando a ponta do nariz e os dedos das mãos.
Nosso cachorro, o Dasso, um pastor alemão muito fiel, acompanhou-nos uma parte do caminho e retornou pra cumprir seu papel de cão de guarda, quando chegamos em frente ao Hotel Glória, um casarão antigo, onde Dom Pedro II ficara hospedado uns dias, no período da Guerra do Paraguai.
Na hora de atravessar a praça, senti calafrios. Tudo dormia. A igreja erguia-se ao fundo silenciosa, como se tivesse uma existência própria e nos observasse com distanciamento. No interior da praça, as árvores frondosas criavam um escuro espesso. O ciciar das folhas acompanhava o som dos grilos, sobre um manto de silêncio. De vez em quando a quietude era quebrada com o movimento brusco de um galho. Provavelmente uma coruja se mexia ou um outro pássaro acordava. Vez ou outra, um latido distante se ouvia.
Havíamos criado um mito de um cachorro semi invisível que atacava as pessoas no meio da noite. E, mesmo assim, não contornamos a praça, fomos pelo seu centro, cortando em diagonal e sentindo na carne a sensacão de perigo. Com Dasso, poderíamos estar mais protegidos, mas era melhor que ele ficasse em casa, já que só batemos a porta por fora, sem chave.
Existia também a possibilidade de toparmos com Adão Canhão, um mendigo que morava no oco de uma árvore na Floresta da Bica, que margeava a cidade. Ele já nos havia perseguido durante o dia, quando invadimos seu território, no meio do mato. Não acreditávamos que ele estivesse pela cidade àquelas horas, mas vá saber.
Há segundos que parecem minutos e minutos que assemelham-se a horas. Lembro-me de estar com um gorro marrom uruguaio, feito de lã, com tapa orelhas, como usavam os pilotos de avião. Fechei o botão do gorro por baixo do queixo, que isso pareceia dar mais segurança. E assim transpusemos o maior obstáculo de nossa aventura, chegando à esquina do Clube Comercial de onde já se podia avistar o letreiro da ótica Lang ao lado da casa do vô. Descendo a rua, passamos em frente à obra do Gianfranco, um comerciante que fazia o primeiro prédio com mais de dois pisos da cidade, onde os operários estavam começando a chegar.
Mais um minuto e estávamos batendo na porta e torcendo para que o vô ouvisse e a vó não acordasse. Logo, percebemos o arrastar de seu chinelo de couro no assoalho, que rangia e fazia estalar os armários, à medida em que se aproximava até escutarmos sua voz perguntando quem era.
À nossa resposta, abriu uma das folhas da imensa porta de entrada e olhou para baixo, onde deve ter visto três pares de olhos bem acordados, com narizes gelados e bocas sorridentes.
Não lembro que perguntas teria nos feito, mas sei que ficou contente com a inesperada visita e logo senti o aconchego da casa quentinha, a lareira acesa e a água escorrendo pelo bico da chaleira pra repor o mate, que corria de mão em mão. O jeito que ele cevava a erva deixava-a com um gosto especial. Até hoje, quando tomamos um mate com aquele sabor, dizemos que está a la Zeca Franco. E ficamos, ali, proseando e olhando pro fogo até que, pelas seis da manhã, escutamos o estapido de um tiro, vindo da rua.
Saímos para ver e, na calçada em frente à obra do Gianfranco, um corpo jazia no chão com o peito coberto de sangue e uma porção de gente ao redor. Indagamos e fomos informados de que uma desavença entre dois obreiros havia findado daquela maneira.
Fiquei observando as pessoas em volta do corpo, perscrutando nas fisionomias presentes quem poderia ter sido o autor do disparo. Certamente o assassino por ali já não se encontrava, ou fora detido, ou havia fugido, mas, diante da força das imagens, esses detalhes, para mim, passavam a um plano secundário.
Era meu primeiro contato com a morte de um homem e tratava-se de uma existência interrompida em pleno vigor. Já havia visto o abate de gado e a caça às perdizes. Já sentira um coração de galinha pulsando sob meus dedos que lhe apertavam o pescoço a um instante de Dona Maria, a cozinheira, cortar-lhe a jugular para fazer a sangria e preparar o frango ao molho pardo de um almoço dominical.
Nessas regiões pampeanas encara-se o sacrifício de animais com naturalidade e rudeza. Lida-se com isso desde cedo, faz parte do cotidiano. Mas a morte de um homem é algo completamente distinto. Por isso, naquela manhã, sentia uma atmosfera pesada, que criava um continuum envolvendo o corpo, o chão, as pessoas e objetos à volta.
E fiquei a buscar um culpado entre os que ali se encontravam, até divisar um sujeito de testa comprida e maxilar protumberante, com os globos oculares profundos e olhar meio perdido. A partir daquele momento, ele passou a representar, para mim, não só o assassino, mas toda a situação que o crime envolvia.
Não lembro se partilhei essa idéia com meus irmãos ou se a guardei como uma impressão somente minha. Mas, muitas vezes, cruzava com esse homem pela cidade e não entendia como ainda podia estar solto.
Mas, ao entrar em contato com as idéias lombrosianas, já tinha opiniões formadas sobre muitos assuntos e fiquei, de imediato, em desacordo com elas, pois não considerava que as características físicas de uma pessoa pudessem determinar um comportamento criminoso. Sabemos que fatores bem mais importantes concorrem para isso, como a educação, o caráter, as condições da sociedade em que se vive e o livre arbítrio, entre outras coisas.
Hoje, olhando em retrospectiva para nossa aventura infantil, percebo que buscávamos o desconhecido, desafiamos o negror da noite, como se fosse um preparo para a cena que se descortinou na sequência das horas.
E meu avô, que era um homem de encarar a realidade de frente, deixou que a vivêssemos como algo a ser incluído em nossa formação, para o aprendizado das coisas que fazem parte da vida, como uma iniciação que começou ao sairmos de casa, e que o destino incumbiu-se de completar com tintas inesperadas.
As fotos fazem parte do acervo pessoal de minha mãe, Heloiza. São duas fotos de caçada e três em que ela está a cavalo, quando era bem jovem, numa delas com meu tio Benedito.