Entardecer nos pampas
Nesse post abro espaço para meu amigo e parceiro Bebeto Alves falar de um projeto novo seu. Homem inquieto e de muitas idéias, Bebeto é gaúcho da região da fronteira como eu, onde começa a paisagem conhecida como pampa em que os campos se estendem para além da vista em pequenas ondulações a que denominamos coxilhas. Nesse ambiente surgiu a figura do gaúcho, aquele ser andejo, que no lombo de um cavalo atravessa as fronteiras do real ao imaginário para ser reinventado nas páginas de Simões Lopes Neto, Erico Veríssimo, Aparicio Silva Rillo, Barbosa Lessa e de nossos vizinhos, Jorge Luis Borges, Ricardo Guiraldes e Martin Fierro, entre outros brasileiros, argentinos e uruguaios.
Bebeto foi atrás das origens desse ser emblemático e encontrou suas pegadas no pó de paragens distantes, da Península Ibérica e da África do Norte, conhecida como Mahgreb , onde muitos chegaram provindos também do Egito, o que lhes conferiu o nome de egiptanos, gitanos, ou ciganos e que são, aliados a outras etnias, os formadores da constituição genético cultural do Rio Grande do Sul e cercanias.
Bebeto tem pensado muito sobre o papel que essa cultura criada em torno do paralelo 30 brasileiro pode e deve desempenhar para integrar-se no mosaico cultural do país. Ele explicará isso à sua maneira, pois sei que perde o sono bem mais do que eu com essas questões, mas é sabido que o Brasil absorve mais a cultura vinda de suas regiões mais quentes do que a provinda de nosso clima sub temperado.
Isso pode ser creditado, em parte, aos diferentes momentos em que o Brasil necessitou forjar uma identidade nacional e buscou em suas manifestações mais tropicais a sua forma de representação para o mundo externo e para si mesmo, como aconteceu no momento da Proclamação da República, onde deu-se uma ênfase ao chorinho e ao maxixe como formas musicais representativas do país, e, num outro momento, com o enfoque dado ao samba por Getulio Vargas durante o Estado Novo. E isso não fica restrito à musica, o mesmo aconteceu e segue acontecendo com a literatura, as artes plásticas, o cinema, etc

Guilherme Litran: Carga de Cavalaria, 1893 acervo Museu Júlio de Castilhos, P. Alegre
Sobra ainda um estigma relacionado a uma falsa idéia de que o gaúcho é separatista, sendo que o movimento conhecido como Guerra dos Farrapos, que começou reivindicatório contra os altos impostos cobrados pela coroa e a impossibilidade de se colocar na presidência da província um representante indicado pelos próprios gaúchos, desdobrou-se em uma manifestação republicana e abolicionista que visava, antes do que separar-se, integrar o Brasil a uma modernidade inspirada nos ideais da Revolução Francesa e também no modelo federativo da constituição americana. Nós gaúchos não somos separatistas, mas, de certa forma, como identidade cultural, sempre ficamos meio apartados da colcha de retalhos da produção brasileira.
Muitos já se debruçaram de forma constante e efetiva sobre essa questão, abordando-a sob pontos de vista diferentes, como Vitor Ramil que fez profundas reflexões a respeito do tema, criando a partir de suas perspectivas um conjunto de pensamentos que resultou num conceito estético que ele denominou de Estética do Frio, a partir do qual vem orientando seus trabalhos em música e literatura. Embora eu não me identifique com tudo o que ele apregoa, reconheço o esforço intelectual do Vitor e o salto qualitativo que sua obra alcançou a partir do momento em que seu trabalho tomou esse rumo, angariando um público cada dia maior no Brasil e em outros países da América do Sul, da Europa e no Japão, o que veio a colaborar para uma maior visibilidade da arte produzida no RS.
Mais sanguíneo e solar, Bebeto apresenta seu modo de interpretar essa mesma gema cultural, evidenciando seus aspectos mais africanos, acrescentando em sua perspectiva artística uma verve mais emocional e ritmcamente mais ativa. Portanto essa sua viagem ao Marrocos, à Catalunha e a Portugal apresenta-se como um reencontro seu com suas origens, com seus sentimentos mais profundos, o que fica evidente quando o vemos interpretar suas canções carregadas de imagens como se fossem caravanas plenas de mercadorias e paixões. Essa viagem e outras incursões de Bebeto pelo Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Argentina estão sendo registrados em Vídeo HD e farão parte de um longa metragem sobre sua carreira, sua produção cultural e seus pensamentos. A riqueza das imagens publicadas abaixo anunciam que vem por aí um trabalho muito importante sobre a cultura do Brasil produzida nessa região ainda pouco explorada pelos próprios brasileiros.
Com a palavra esse artista que tanto admiro.

Torre de Belém, Lisboa
MAIS UMA CANÇÃO por Bebeto Alves
Convidado pelo meu amigo Antonio a trazer até vocês , no espiríto do “A Câmera Que Filma Os Dias” o conhecimento de um trabalho que estamos realizando desde o ano passado; uma reflexão sobre matrizes étnicas culturais , origens , dna, genoma, da composição de um território criativo, de uma subjetividade inexplorada em sua totalidade e pouca entendida dentro de um conceito de identidade nacional no universo da nossa cultura popular, no mapa da nossa canção brasileira, em seus movimentos e caminhos, organizo cronologicamente , a fim de leitura , esse volume.
Sem negar, absolutamente, todos aqueles que já estabeleceram , de uma maneira ou de outra, uma relação como essa cena, seja através de um mercado, ou , a partir de conceituações que eventualmente buscam sua tradução. Ou, ainda, atentos às mudanças de paradigmas na indústria cultural, no mercado fonográfico e editorial, nas relações com um público que se utiliza de novos meios para se relacionar com a canção e seu processo criativo, entendemos que uma derivação de conceitos, novas idéias, e reflexões ainda mais aprofundadas sobre um “ sul brasileiro estado de coisas” original, diferente e novo, pode contribuir para o enriquecimento do imaginário poético-musical do país. Ver a diferença e com ela buscar a soma , a multiplicação isso é o que nos move. Na busca da singularidade não existe convenção, nem tempo, muito menos qualquer tipo de realidade, que invalide esse tipo de processo, de busca e de entendimento.

Peña Flamenca em Jerez (Es)
Tudo começa no ano passado, no Rio, quando procurado pela equipe da Estação Elétrica, produtora de cinema de Porto Alegre, para fazer um still fotográfico para uma entrevista com Andy Summers e Roberto Menescal, sobre “Orfeu Negro” : Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1963. Filme que faz parte da história da cinematografia brasileira , e que tinha como protagonista um jogador de futebol do Rio Grande do Sul, chamado Breno Melo. “Pescado” nas ruas da cidade do Rio pelo produtor françês, Breno se tornou uma celebridade e, tão rápido quanto se possa imaginar, caiu no esquecimento. O filme que o diretor Alexandre Derlam (Alex) está construindo versa sobre esse personagem e está em fase de captação.
Daí surge o que se segue: No final do ano fui a Porto Alegre para fazer um concerto com a Orquestra de Câmera de Theatro São Pedro. Convidei essa equipe, o Alex, de quem tinha me tornado amigo, para fazer uma captação de imagens para , talvez, um futuro DVD . O concerto realizou-se, e, realmente, fizemos a captação.
As imagens lindas, som excelente, mas…nos veio uma sensação de “ tá… Mas, e dai? É isso?, só isso? “
Não, não era só isso. Foi o começo de um processo que tem nos levado a muitos lugares, a buscar não somente imagens bonitas, cenários, mas um aprofundamento de nossas origens culturais a partir de um sul multifacetado, plural, diverso.
Um grande making-off, um documentário. Se fez necessário esse tipo de formato, desse tipo de espaço pra cantar essa canção.

Confraria do Funcho, Uruguaiana, RS
Sou um homem nascido na fronteira oeste do sul do Brasil.
Com o Uruguai e a Argentina testemunhando um mundo possivel de viver, além dos limites geográficos e culturais, desde pequeno me acostumei com a idéia de que esse mundo era transponível, tinha de ser. Além de qualquer convenção internacional de nacionalidades , além da aduana, da alfândega, do passaporte. O que me fez entender , também, necessáriamente, que a esse contato , eu tinha uma identidade: um brasileiro, aos olhos desses vizinhos.
Talvez, isso já bastasse, com o amálgama de que é composta a minha música - o pop rock internacional, a música argentina, o tango, o chamamé, a milonga sul brasileira, o samba dos fuzileirios navais e o carnaval fronteiriço, a cancão italiana, o cinema françês, o Existencialismo, a Jovem Guarda, o Tropicalismo, Mutantes, Gil, Caetano, os anos sessenta, para uma sensação de integridade
Mas, a fronteira do Brasil, o oeste-sul do Brasil nos faz enxergar mais longe, queiramos ou não, ver outras possibilidades.

Milonga marroquina
Composta de etnias inusitadas- franceses, catalões, árabes, sirio-libaneses, palestinos, judeus, bascos, além dos portugueses, negros, índios, espanhóis, e mais recentemente (falo de fronteira!) , italianos e alemães -, ao nos despir de todas a influências possíveis, vamos encontrar um espírito melancólico, reflexivo ambientado no plano da lonjura e da imensidão.
Um canto melismático, choroso, brota inconsciente: ai, aiaiaiaia, ai, aiai aiiiiiii…Que nos remete às franjas étnicas do norte da África, e que nos levou até o Marrocos, Andaluzia, no sul da Espanha e Portugal.

Dan Ova e Veludo, Sambistas de Uruguaiana
Depois de termos filmado na minha cidade, Uruguaiana, entre a Confraria do Funcho, o corpo de veteranos dos fuzileiros navais, à beira do Rio Uruguai, em Paso de Los Libres na Argentina, no pampa, fizemos essa viagem de descoberta às avessas.
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Penha flamenca em Jerez
Encontramos a correspondência, tanto no norte africano quanto so sul da Espanha,e , claro, em Portugal, em Lisboa.
Ainda falta o Rio, falta Buenos Aires para cobrir a extensão imaginada pela nossa aventura cinematográfica..
Somaram-se a equipe, desde o início, além de Alexandre Derlam, o diretor Rene Goya, os cinegrafistas Pablo Chasseraux e Jair a produtora Vivan Shafer e a equipe toda da Estação Elétrica. O roteiro está sendo elaborado pelo jornalista Márcio Pinheiro. Tudo dentro de um espirito onde os “ pitacos” são aceitáveis, claro.

Equipe Estação Elétrica em Jerez
Eu sei que muito já foi pesquisado e vivenciado, mesmo dentro da nossa canção popular, isso já foi tocado aqui e acolá, mas nada minimiza a contribuição que esse filme pode trazer para a compreenção do caráter da canção brasileira ao sul do Brasil e por extensão do seu enriquecimento com esses novos anexos ao território da nossa música popular, propriedade de todos nós brasileiros.

David Lagos, cantor flamenco, e Jesus Pulpón, produtor do filme na Espanha
Ah, em tempo, o nome provisório do filme é: Mais Uma Canção.Nesses países, por onde, até aqui, estivemos, foram gravadas cenas com artistas locais. Buscando aproximações ,nos certificando de todas as diferenças, misturando tudo.
A estréia desse longa está marcada para o primeiro semetre do ano que vem.
Valeu Totonho. Deixo um super abraço a todos.
Bebeto
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Bebeto e o diretor Rene Goya em Tanger
Bebeto Alves é cantor e compositor com 23 discos e um DVD lançados. Autor de sucessos gravados por Ana Carolina, Tânia Alves , Kleiton e Kledir, Ednardo e Belchior, entre outros.
Tem três filhas, Luna, Kim e Mel Lisboa e três netos Ana Clara, Bia e Bezinho.