quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O ETERNO CUPIDO






tenho ao meu lado o cupido

 caminho do meio

entre eu e alguém


as pessoas são múltiplas

 o cupido um só

apesar dos metamorfoseados ares  

e olhares inesperados  

que de vez em quando faz

 

as pessoas mudam 

e voltam depois da mudança

ou então ficam

mas permanecem sempre mudando

 

eu mudo modificando o meu modo de mudar

de acordo com as mudanças constantes que acontecem

no tempo


e o que permanece?

 

O ETERNO

 

a ligação entre os pontos

os fatos perdidos distantes

que ainda virão amanhã

e os que já foram 

bem antes


tudo é um só


tudo converge em presente

num instante sem pensamento

só sendo


sem pertencer à ilusão

que se vê

quando se fala de espaço e de tempo

 

será que esse tempo passou

ou esteve apenas mudando?  


e o espaço também passará

ou será transpassado pelos jogos do tempo?

 

 tudo ilusão

exceto o cupido que caminha do lado

única coisa que vale de fato


ele com suas formas mutantes 

só mostra de tudo o sagrado

como Eros

como Cristo

como sexo divino

como amor fraternal entre os homens

ele abarca geral

 

e assim me  parece legítimo estar sempre com ele

realizando a evolução permanente

no aqui e no agora

único tempo real e possível

 

Eis aí algo pra se aproveitar

a oportunidade de mudança de ano

com uma  simples resolução que presida todas as coisas


De 2010 pra SEMPRE


AMAR ACIMA DE TUDO





Agradecimentos a todos que aqui estiveram lendo, comentando, trazendo informações e links legais. Continuempos plugados no ano que entra. Felicidades!!!!!!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O RIO E SUAS TINTAS















Passarem-se vinte e dois dias, a maior parte deles com chuva aqui no Rio, e eu sem tempo de postar, fui deixando o Blog aos cuidados do Bebeto Alves que interagiu nos comentários com nossos habituais visitantes e tantos outros que se achegaram trazidos pela curiosidade despertada pelo seu trabalho. Obrigado Bebeto pela sua contrubuição que muito enriqueceu essa página, obrigado a todos que tem vindo e que pacientemente esperaram pelo meu regresso.

Com os dias feios, dei uma parada nas atividades ao ar livre, minha bicicleta ficou encostada na garagem parecendo me olhar, inquisidora, cada vez que eu entrava no carro para meus compromissos externos.




Há dois dias o sol rompeu o bloqueio e conseguiu enfeitar à seu modo a cidade. Voltei a fazer tudo pedalando e fui fotografando o que via. Há muitas coisas a falar, visitas que andei fazendo em favelas para um novo projeto que estou desenvolvendo e dois encontros importantes que tive nesse perídodo,  com Alegre Correa, excelente músico e grande amigo que mora na Áustria e está na fase final de elaboracão de um portal de música e com um advogado, Gustavo Cortês, que tem idéias parecidas com as minhas para processos de reciclagem e reaproveitamento do lixo e que já está com estudos bem mais avançados que os meus, trabalhando já em equipe, com estatísticas, gráficos, proposições concretas e boas perspectivas. Alertou-me que há uma "máfia do lixo", coisa que constatei depois em pesquisas, gente que ganha muito dinheiro com os lixões e com o transporte de dejetos. Muito da política e do dinheiro nela aplicado vem dessas fontes e por isso é muito difícil chegar com idéias novas. Mas estamos nos organizando e em breve darei mais notícias. Provavelmente precisaremos contar com vocês, com sua vontade de trabalhar, de escrever, de denunciar e, quem sabe, de associar-se em alguma parte de nossos projetos.



Tainara Claudia, que sempre contribui com comentários relevantes e bem fundamentados  na Câmera, sugeriu-me falar do sentido oculto do Natal e publicou no seu blog um texto muito elucidativo a esse respeito. Li, gostei e de quebra curti dois poemas seus lá publicados. Acho que sobre seu texto não tenho nada a acrescentar por hora, por isso deixo a vocês o link da página dela, em breve irei lá comentar. Vale a pena:

http://www.tainaraclaudia.blogspot.com




Acordei cedo e hoje vibro positivamente com uma pessoa muito querida e encantadora que passará por um processo de cura. Estou há dois dias com meus melhores pensamentos para ela e à disposição para o que for necessário. Relimpei meus canais e agora me sinto mais apto para essa entrega de ajuda. Essa pessoa ainda nos dará muitas alegrias e fará parte de minha vida cada vez mais.

Para que o dia continue belo, vou deixá-los com algumas fotos e escritos pequenos que fiz nos útlimos dias.
Boa quinta e bom fim de semana a todos.
Beijones, como diz Hannaly.













O Rio e suas tintas 
    
O Rio não é cidade
é beldade,
belicidade total
onde misturam-se
musas
como partes que são de um vitral ...

a musa que é dançarina
única
ser principal
a bela de porcelana
medusa
 a escritora fatal
a fera
 a vilã soberana
a arcana
 a morena coral

Musas multiplicadas
em miras
miragens de água
onde adormecem macias
as rosas remidas de mágoa

e assim se enovelam
e desfiam
em curvas de luz nacarada
e vestem de branco e azul
a vênus 
recém despertada






Frère soleil


Il a venu ce matin
comme au sortir d'un rêve étrange
aurait la lune lui emprisonné
ou il était couché sur un coussin de nuages?






Elle marche dans la rue et s'en va
                              C'est la pluie
                                                                                                                                                                                 les gouttes comme des petits soldats ...
 Je sens sa tendresse
                               lorsque ses mains me caressent
 
              
                          

                             
                                       
                  
             Poemofagia                                
          
         nuvens engolem a paisagem
a chuva é só maresia
o Rio transpõe outra margem
pra me delivrar poesia






Ma soeur, la lune

 sous le signe de cancer 
je connais bien la lune 
ses mensonges
 ses mystères 

l'influence q'elle a sur mes fluides 
la façon de bouger
mes liquides
l'attraction qu'elle exerce sur la mer

comme les femmes
je sens q'elle fait
les tempêtes qui troublent mon cœur


     




quarta-feira, 25 de novembro de 2009

AMIGOS NOTÁVEIS 2: BEBETO ALVES / O QUE VEM DOS PAMPAS





                                                            Entardecer nos pampas


Nesse post abro espaço para meu amigo e parceiro Bebeto Alves falar de um projeto novo seu. Homem inquieto e de muitas idéias, Bebeto é gaúcho da região  da fronteira como eu, onde começa a paisagem conhecida como pampa  em que os campos se estendem para além da vista em pequenas ondulações a que denominamos coxilhas. Nesse ambiente surgiu  a figura do gaúcho, aquele ser andejo, que no lombo de um cavalo atravessa as fronteiras do real ao imaginário para ser reinventado nas páginas de Simões Lopes Neto, Erico Veríssimo, Aparicio Silva Rillo,  Barbosa Lessa e de nossos vizinhos, Jorge Luis Borges,  Ricardo Guiraldes  e Martin Fierro, entre outros brasileiros, argentinos e uruguaios. 

Bebeto foi atrás das origens desse ser emblemático e encontrou suas pegadas no pó de paragens distantes, da Península Ibérica e da África do Norte, conhecida como Mahgreb , onde muitos chegaram provindos também do Egito, o que lhes conferiu o nome de egiptanos,  gitanos, ou ciganos e que são, aliados a outras etnias, os formadores da constituição genético cultural do Rio Grande do Sul e cercanias.


Bebeto tem pensado muito sobre o papel que essa cultura criada em torno do paralelo 30 brasileiro pode e deve desempenhar para integrar-se no mosaico cultural do país.  Ele explicará isso à sua maneira, pois sei que perde o sono bem mais do que eu com essas questões, mas é sabido que o Brasil absorve mais a cultura vinda de suas regiões mais quentes do que a provinda de nosso clima sub temperado.  

Isso pode ser creditado, em parte, aos diferentes momentos em que o Brasil necessitou forjar uma identidade nacional e buscou em suas manifestações mais tropicais a sua forma de representação para o mundo externo e para si mesmo, como aconteceu no momento da Proclamação da República, onde deu-se uma ênfase ao chorinho e ao maxixe como formas musicais representativas do país, e, num outro momento, com o enfoque dado ao samba por Getulio Vargas durante o Estado Novo. E isso não fica restrito à musica, o mesmo aconteceu e segue acontecendo  com a literatura, as artes plásticas, o cinema, etc


 Guilherme Litran: Carga de Cavalaria,  1893 acervo  Museu Júlio de Castilhos, P. Alegre


Sobra ainda um estigma relacionado a uma falsa idéia de que o gaúcho é separatista, sendo que o movimento conhecido como Guerra dos Farrapos, que começou reivindicatório contra os altos impostos cobrados pela coroa e a impossibilidade de se colocar na presidência da província um representante indicado pelos próprios gaúchos,  desdobrou-se em uma manifestação republicana e abolicionista que visava, antes do que separar-se, integrar o Brasil a uma modernidade inspirada nos ideais da Revolução Francesa e também no modelo federativo da constituição americana. Nós gaúchos não somos separatistas, mas, de certa forma, como identidade cultural, sempre ficamos meio apartados da colcha de retalhos da produção brasileira. 

Muitos já se debruçaram de forma constante e efetiva sobre essa questão, abordando-a sob pontos de vista diferentes, como Vitor Ramil que fez profundas  reflexões a respeito do tema,  criando a partir de suas perspectivas um conjunto de pensamentos que resultou num conceito estético que ele denominou de Estética do Frio, a partir do qual vem orientando seus trabalhos em música e literatura. Embora eu não me identifique com tudo o que ele apregoa, reconheço o esforço intelectual  do Vitor e o salto  qualitativo que  sua obra alcançou a partir do momento em que seu trabalho tomou esse rumo, angariando um público  cada dia maior no Brasil e em outros países da América do Sul, da Europa e no Japão, o que veio a colaborar para uma maior visibilidade da arte produzida no RS.

Mais sanguíneo e solar, Bebeto apresenta seu modo de interpretar essa mesma gema cultural, evidenciando seus aspectos  mais africanos, acrescentando em sua perspectiva artística uma verve mais emocional e ritmcamente mais ativa. Portanto essa sua viagem ao Marrocos, à Catalunha e a Portugal apresenta-se como um reencontro seu com suas origens, com seus sentimentos mais profundos, o que fica evidente quando o vemos interpretar suas canções carregadas de imagens como se fossem caravanas plenas de mercadorias e paixões. Essa viagem e outras incursões de Bebeto pelo Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Argentina estão sendo registrados em Vídeo HD e farão parte de um longa metragem sobre sua carreira, sua produção cultural e seus pensamentos. A riqueza das  imagens publicadas abaixo anunciam que vem por aí um trabalho muito importante sobre a cultura do Brasil produzida nessa região ainda pouco explorada pelos próprios brasileiros.


Com a palavra esse artista que tanto admiro.

 

                                                            Torre de Belém, Lisboa


MAIS UMA CANÇÃO por Bebeto Alves


Convidado pelo meu amigo Antonio a trazer até vocês , no espiríto do “A Câmera Que Filma Os Dias” o conhecimento de um trabalho que estamos realizando desde o ano passado; uma reflexão sobre matrizes étnicas culturais , origens , dna, genoma, da composição de um território criativo, de uma subjetividade inexplorada em sua totalidade e pouca entendida dentro de um conceito de identidade nacional no universo da nossa cultura popular, no mapa da nossa canção  brasileira, em seus movimentos e caminhos, organizo  cronologicamente , a fim de leitura , esse volume.

 Sem negar, absolutamente, todos aqueles que já estabeleceram , de uma maneira ou de outra, uma relação como essa cena, seja através de um mercado, ou ,  a partir de conceituações que eventualmente buscam sua tradução. Ou, ainda, atentos às mudanças de paradigmas  na indústria cultural, no mercado  fonográfico  e editorial, nas relações com um público que se utiliza de  novos meios para se relacionar com a canção e seu processo criativo, entendemos  que uma derivação de conceitos, novas idéias, e reflexões ainda mais aprofundadas sobre um “ sul brasileiro estado de coisas”  original, diferente e novo, pode contribuir para o enriquecimento do  imaginário poético-musical do país. Ver a diferença e com ela buscar a soma , a multiplicação isso é o que nos move. Na  busca da singularidade não existe convenção, nem tempo, muito menos  qualquer tipo de realidade, que invalide esse tipo de  processo, de busca e de entendimento.

 

                                                     Peña Flamenca em Jerez (Es)

Tudo começa no ano passado, no Rio, quando procurado pela equipe da Estação Elétrica, produtora de cinema de Porto Alegre, para fazer um still fotográfico para uma entrevista com Andy Summers e Roberto Menescal,  sobre  “Orfeu Negro” : Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1963. Filme que faz parte da história da cinematografia brasileira , e que tinha como protagonista um jogador de futebol do Rio Grande do Sul, chamado Breno Melo. “Pescado”  nas  ruas da cidade do Rio  pelo produtor françês, Breno se tornou uma celebridade e, tão rápido quanto se possa imaginar, caiu no esquecimento. O filme que o diretor Alexandre Derlam (Alex) está construindo versa sobre esse personagem e está em fase de captação.

 Daí surge o que se segue: No final do ano fui a Porto Alegre para fazer um concerto com a Orquestra de Câmera de Theatro São Pedro. Convidei essa equipe, o Alex, de quem tinha me tornado amigo,  para fazer uma captação de imagens para , talvez, um futuro DVD . O concerto realizou-se, e, realmente, fizemos a captação.

 As imagens lindas, som excelente, mas…nos veio uma sensação de “ tá… Mas, e dai?  É isso?, só isso? “

Não, não era só isso. Foi o começo de um processo que tem nos levado a muitos lugares,  a buscar  não somente imagens bonitas, cenários, mas um aprofundamento de nossas origens culturais a partir de um sul multifacetado, plural, diverso.

 Um grande making-off, um documentário. Se fez necessário esse tipo de formato, desse tipo de  espaço pra cantar essa canção. 

                          Confraria do Funcho, Uruguaiana, RS


Sou um homem nascido na fronteira oeste do sul do Brasil.

 Com o Uruguai e a Argentina  testemunhando  um mundo possivel de viver, além dos limites geográficos e culturais, desde pequeno me acostumei com a idéia de que esse mundo era transponível, tinha de ser. Além de qualquer convenção internacional de nacionalidades , além da aduana, da alfândega, do passaporte. O que me fez entender , também, necessáriamente, que a esse contato , eu tinha uma identidade: um brasileiro, aos olhos desses vizinhos.

Talvez, isso já bastasse, com  o amálgama de que é composta  a minha música  - o pop rock internacional, a música argentina, o tango, o chamamé, a milonga sul brasileira, o samba dos fuzileirios navais e o carnaval fronteiriço, a cancão italiana, o cinema françês, o Existencialismo,   a Jovem Guarda, o Tropicalismo, Mutantes, Gil, Caetano, os  anos sessenta, para uma sensação de integridade

Mas, a fronteira do Brasil, o oeste-sul do Brasil nos faz enxergar mais longe, queiramos ou não, ver outras possibilidades. 

                                                            Milonga marroquina

Composta de etnias inusitadas- franceses, catalões, árabes, sirio-libaneses, palestinos, judeus, bascos, além dos portugueses, negros, índios, espanhóis, e mais recentemente (falo de fronteira!) , italianos e alemães -, ao nos despir de todas a influências possíveis, vamos encontrar um espírito melancólico, reflexivo  ambientado no plano da lonjura e da imensidão.

 Um canto melismático, choroso, brota inconsciente: ai, aiaiaiaia, ai, aiai aiiiiiii…Que nos remete às franjas étnicas do norte da África, e que nos levou  até o Marrocos, Andaluzia, no sul da Espanha e Portugal.

     

                     Dan Ova e Veludo, Sambistas de Uruguaiana

Depois de termos filmado na minha cidade, Uruguaiana, entre a Confraria do Funcho, o corpo de veteranos dos fuzileiros navais, à beira do Rio Uruguai, em Paso de Los Libres na Argentina, no pampa,  fizemos essa viagem de descoberta às avessas.

 

                                  Penha flamenca em Jerez


Encontramos a correspondência, tanto no norte africano quanto so sul da Espanha,e , claro, em Portugal, em Lisboa.

 Ainda falta o Rio, falta Buenos Aires para cobrir  a extensão imaginada pela nossa aventura cinematográfica..

 Somaram-se a equipe,  desde o início, além de Alexandre Derlam, o diretor Rene Goya, os cinegrafistas Pablo Chasseraux e Jair a produtora Vivan Shafer e a equipe toda da Estação Elétrica. O roteiro está sendo elaborado pelo jornalista Márcio Pinheiro. Tudo dentro de um espirito onde os “ pitacos” são aceitáveis, claro.


                                              Equipe Estação Elétrica em Jerez


Eu sei que muito já foi pesquisado e vivenciado, mesmo dentro da nossa canção popular, isso já foi tocado aqui e acolá, mas nada minimiza a contribuição que esse filme pode trazer  para a compreenção do caráter da canção brasileira ao sul do Brasil e por extensão  do seu enriquecimento com esses novos anexos ao território  da nossa música popular, propriedade de todos nós brasileiros. 

  David Lagos, cantor flamenco, e Jesus Pulpón, produtor do filme na Espanha

Ah, em tempo, o nome provisório do filme é: Mais Uma Canção.Nesses países, por onde, até  aqui, estivemos, foram gravadas cenas com artistas locais. Buscando aproximações ,nos certificando de todas as diferenças, misturando tudo.

A estréia desse longa está marcada para o primeiro semetre do ano que vem.

Valeu Totonho. Deixo um super abraço a todos.

Bebeto 

 

Bebeto e o diretor Rene Goya em Tanger



Bebeto Alves é cantor e compositor com 23 discos e um DVD lançados. Autor de sucessos gravados por Ana Carolina,  Tânia Alves , Kleiton e Kledir, Ednardo e Belchior, entre outros.

Tem três filhas, Luna, Kim e  Mel Lisboa e três netos Ana Clara, Bia e Bezinho.