
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
ALÉM DO PARAÍSO EM PORTO ALEGRE COM LOKUA

sábado, 8 de novembro de 2008
ALÉM DO PARAÍSO DE VOLTA AO RIO COM CANJA DE LOKUA KANZA

terça-feira, 28 de outubro de 2008
O REDENTOR ESTÁ COM UMA COR ESTRANHA

sexta-feira, 24 de outubro de 2008
SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE GABEIRA

Com o tempo bom, voltei a pedalar e, durante meus percursos, revivi algumas passagens da história de amor que tenho com o Rio de Janeiro., começando pela primeira canção que compus, uma ode ao Rio, que escrevi quando tinha 10 anos de idade.
Estávamos em São Gabriel no mês de fevereiro e forçados pela chuva, meu irmão Gastão, meu primo Didito e eu resolvemos fazer um campeonato de canções. Não tocávamos nenhum instrumento a não ser bater em latas e mesmo assim nos separamos em quartos diferentes, eles em dupla e eu sozinho para compormos à Lupicínio, sem acompanhamento imaginando a harmonia na cabeça.
No quarto em que fiquei, havia uma revista com uma reportagem sobre as chuvas de verão do Rio, com imagens de deslizamentos e carros arrastados pelas águas. Aquilo para mim parecia um contrasenso e felizmente nas páginas seguintes apareciam fotos do Rio como eu gostava de ver, cenas do Maracanã, os cartões postais, os bikinis em Copa e Ipanema.
Rapidamente rabisquei um refrão que era simplesmente o nome da cidade repetido com uma melodia que ia mudando e alguns versos falando das praias, dos times, das belezas naturais com rimas ingênuas do tipo Copacabana e Vasco da Gama.
Cinco anos depois, nas férias de julho, finalmente conheci o Rio e aqui festejei meus quinze anos de idade. Vim com meus irmãos, Gastão e Carlos Eduardo, em um ônibus da Viação Penha numa viagem de 24 horas, deixando para trás as manhãs enevoadas e as folhas brancas de geada do inverno gaúcho.
O contato direto com a cidade foi um deslumbramento. Tudo era vivo e novo, a luminosidade, os perfumes, o colorido da paisagem, as roupas estampadas, as peles douradas das meninas e os cabelos descoloridos dos surfistas. Ia a praia todos os dias e me esbaldava pela noite de atmosfera inebriante com brisa leve e maresia.
Passei parafina no cabelo, peguei jacaré no Arpoador, voltei queimado de sol e com os cabelos amarelados nas pontas. Queria conservar-me assim até o verão, mas o mês de agosto do sul tinha um sol tênue, muito bom pra se comer bergamota no portal de casa, mas que não sustentava o bronze por muito tempo e assim voltei à minha cor invernal que se manteve até a chegada de dezembro.
Passados muitos anos, estava em Viena para fazer alguns shows num clube de jazz chamado Porggie & Bess e encontrava-me na casa de uma amiga, Denise Fontoura, entre o Natal e ano novo quando, na televisão local, passou uma reportagem sobre o Rio de Janeiro que mostrava o massacre da Candelária, a chacina de Vigário Geral e outras mazelas.
Assistir àquela matéria em um país distante com a neve caindo lá fora a menos 16 graus centígrados, provocou-me um profunda tristeza. Senti que só fazendo uma nova canção poderia aliviar minha dor.
Então lembrei que dias antes de minha viagem à Europa, assistira em Porto Alegre, junto com meu amigo e grande músico Jorginho do Trumpete, que é filho de mãe de Santo, a uma cerimônia de Umbanda na beira no Rio Guaíba. E fiquei com uma levada de percussão na cabeça que era, como Jorginho me explicou, um ponto de Oxóssi. Assim como no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul Oxossi é sincretizado com São Sebastião.
Daí fui ler sobre Oxóssi e, num um livro de Pierre Verger, aprendi que ele é caçador, irmão de Ogun e tem outros nomes/qualidades: Odé, Otin, Inlé ou Iboalama.
Fiquei obcecado com a idéia de compor uma música com a levada percussiva do ponto de Oxóssi e, para fazer a letra, resolvi pesquisar também sobre a vida de São Sebastião.
Foi então que aprendi que, por volta de 300 DC, Sebastião alistou-se no exército romano e veio a fazer parte da guarda pessoal do imperador Diocleciano, não no intuíto de protegê-lo, mas sim de, clandestinamente, prestar socorro aos cristãos cuja perseguição havia sido decretada pelo mandatário de Roma.
A imagem que conhecemos do Sebastião flechado reconstitui o dia em que, ao tomar conhecimento das ações do seu soldado, o imperador condenou-o por traição e ordenou sua execução por hábeis arqueiros da Mauritânia que deveriam crivá-lo evitando acertar os seus órgãos vitais para que seu suplício fosse longo.
Eis que, apesar dos numerosos ferimentos, Sebastião sobreviveu ao atentado e foi socorrido por uma viúva chamada Irene (Santa Irene) que o ajudou a se reestabelecer, para depois retornar ao centro do império e prosseguir com a missão a que se havia incumbido. No dia 20 de janeiro voltou a apresentar-se perante Diocleciano, para reafirmar a sua fé e censurar as injustiças e crueldades praticadas pelo Imperador que manbdou espancá-lo até a morte.
Como se sabe, Sebastião foi canonizado e passou a ser também venerado como protetor da humanidade contra a peste, a fome e as guerras.
Logo depois de assistir àquela reportagem na TV austríaca, todas aquelas informações sobre o Santo e o Orixá vieram à minha cabeca e juntando-se ao fato de São Sebastião ser o padroeiro do Rio de Janeiro comecei imediatamente a fazer uma canção, com uma melodia sinuosa que fazia lembrar as curvas da cidade com uma harmonia e um ritmo que se aproximavam da bossa nova. No princípio relutei pois meu desejo era compor com o ritmo do ponto do Oxóssi, mas a canção foi se impondo e deixei que ela viesse no formato que me pedia. Em menos de uma hora estava pronta.
Batizei de São Sebastião em homenagem ao padroeiro e fiquei tão entusiasmado que, logo depois, liguei para o Gastão que estava no Rio pra mostrar a nova criação. Ele, com seu humor habitual exclamou:
- - Daquela sua Rio de Janeiro pra cá, melhorou muito!
Décadas haviam se passado e ele me fez lembrar daquela antiga música guardada em um remoto caderno da minha infância.
São Sebastião (a canção) teve, até hoje, quatro gravações. A primeira ocorreu em Viena por uma dupla de cantores brasileiros residentes lá, Izabel Padovani e Marcelo Onofri.
Em 2004, gravei no meu primeiro disco ao vivo com a Orquestra de Câmara Theatro São Pedro de Porto Alegre levando a música a ser indicada ao Grammy Latino como Melhor Canção da Língua Portuguesa.
Depois foi a vez de Mart' Nalia gravar no seu belíssimo disco Menino do Rio dirigido por Maria Bethânia que fez intervencões recitando versos de Vinícius de Moraes.
E finalmente gravei uma outra versão no DVD Sinal do Tempos, novamente com o acompanhamento luxuoso da Orquestra de Câmara Theatro São Pedro e que pode ser conferida no meu site. Lá estão letra e música e no Hot Site há uma versão inteira para se escutar.
Hoje é sexta-feira, o fim de tarde continua bonito com cigarras cantando e daqui a pouco vou sair para uma sessão de autografos do poeta Fabrício Carpinejar na Livraria da Travessa do Leblon.
Olho pro Rio e lembro que suas matas são protegidas por Oxóssi. A cor de Oxóssi é o verde. E é com verde que vou sair vestido sábado e domingo. Por isso convido os simpatizantes com Fernando Gabeira a fazerem o mesmo.
Recebi e repassei um e-mail falando disso, para criarmos uma onda verde e, silenciosamente mostrarmos a nossa preferência política e influenciarmos os indecisos na eleição de domingo.
O governador Sérgio Cabral decretou feriado na segunda para ver se os eleitores de Gabeira, que ele julga serem mais abastados, façam uma debandada da cidade e esvaziem a eleição. Mas os eleitores de Gabeira também são mais conscientes e não trocarão 4 anos que podem mudar a cidade para melhor por um fim de semana prolongado.
Então é isso gente. Bom fim de semana, voto consciente e bons passeios.
Abraços a todos
PS. Como sempre, tenho lido atentamente todos os comentários. Obrigado pelo carinho e contribuição de vocês. Hoje fiquei sem tempo para falar sobre isso, mas num outro post falarei.