
Essa semana foi muito corrida, só hoje estou conseguindo postar. Além das minhas gravações também fiquei envolvido com assuntos do disco Boa Hora de uma cantora muito bacana chamada Marisa Rotenberg, que será lançado pelo meu selo Pic Music. O CD foi produzido por Gastão Villeroy e Eugenio Dale e tem músicas de uma galera nova e antenada, entre eles, Domênico e Alvinho Lancelotti, André Carvalho, Luciana Pestano e ainda os craques Zeca Baleiro, João Suplicy e João Pelegrino.
Além do bom repertório, os arranjos estão muito legais, com uma atmosfera bem brasileira e Marisa está dando muito bem o seu recado. O disco será lançado no dia 24 novembro com show no CCC (Centro Cultural Carioca) no Rio de Janeiro. Fiquem atentos! Em breve dou mais notícias.
Vi que muita gente passou pela Câmera e comentou. Gostei das colaborações sobre as balzaquianas e proustianas. Samuel, não creio que esse texto sobre mulheres com mais de 30 tenha sido escrito por Arnaldo Jabor. Achei um pouco fora do estilo e do aprouch dele. Onde você achou esse texto?
Isso é muito comum de acontecer na internet. O Luis Fernando Veríssimo falou que vários textos são publicados com sua assinatura e enviados por e-mail e que muitas vezes são até textos bons, que ele fica surpreso, mas que não têm nada a ver nem com suas temáticas nem com sua liguagem.
Anna Luna você sempre enriquece as discussões. Gostei de seus comentários sobre homens e mulheres, a questão da adoção, a forma de aproveitar o tempo e seu pedido de delicadeza à ala masculina.
E também o que você falou sobre Tolerância e Nada te Faltará, duas músicas que gosto muito. Sexta-feira, conheci pessoalmente o Lokua Kanza, maravilhoso compositor e cantor natural do Congo, com várIos discos lançados e que gravou os vocais de Nada Te Faltará no disco de Ana Carolina, ampliando os horizontes da canção, tornando mais evidentes seus múltiplos aspectos. Voltarei a falar de Lokua num próximo post. Sobre Tolerância, quase colocamos essa canção no show Além do Paraíso e é fato que quando fiz a letra pensava muito nas linhas imaginárias e reais que desenhamos ao longo do processo civilizatório, as fronteiras étnicas, religiosas, econômicas e comportamentais. Mas a canção também parece estar falando de um simples caso de amor o que lhe confere mais de uma camada de leitura, estabelecendo uma comunicabilidade do raso com o profundo.
Sobre a Obra Aberta, a inspiração veio sim do livro de Umberto Eco, que em 1962 já lidava com a idéia de participação ativa do intérprete ou fruidor na construção final de um objeto artístico. Segundo Eco, a obra de arte é aberta porque não comporta apenas uma interpretação. Com isso ele antecipava o conceiro de pluralidade, muito usado hoje, não só nas artes mas em diversos domínios. E, juntando um assunto com outro, foi a pluralidade que tomei como ponto de partida para Tolerância, pois, com a canção, queria dizer que precisamos aprender a lidar com o caráter multifacetado do mundo. Isso evidencia que até mesmo uma simples canção como essa, inscrita no universo pop, é plural e pode ter várias interpretações.
Mas Umberto Eco ia mais fundo, falava de obras em que o intérprete de uma peça musical podia determinar a duração de uma nota, por exemplo, o que faria dele um co-autor.
Ou então criar várias obras e deixar as possíveis seqüências a serem definidas por quem delas participasse como observador ativo. Esse foi um dos fatores que me levou a dar o nome Obra Aberta à sessão de músicas novas, pois as músicas vão sendo colocadas na rede e os visitantes do site podem montar o disco como quiserem. Vários artistas tiveram essa idéia ao mesmo tempo. Alguns divulgaram seus procedimentos de forma mais eficaz parecendo assim que eram os autores únicos de uma idéia que está no ar pedindo urgência. Imagino que milhares de músicos estejam fazendo isso no mundo, nesse momento. É mais que uma tendência, é um dos inventivos caminhos a serem percorridos com arte nesses novos tempos.
Voltando aos conceitos expostos por Umberto Eco, trabalhei bastante com trilhas de teatro nos anos 80 e 90 e, para muitas criações, tomava como base os princípios da Obra Aberta. Em alguns trabalhos, servia-me de vários gravadores tocando ao mesmo tempo coisas diferentes, dentro de uma relativa harmonia e, a cada dia, conforme o clima dos atores e da platéia, rolavam combinações diferentes de sons, música especialmente composta com cordas + ruídos, vozes, falas, às vezes acrescentava um teclado executado ao vivo, criando texturas diversas, aumentando a entropia, relativizando a percepção do público.
Nessa época, junto com o ator e diretor Marcos Barreto (que saía naquele momento do grupo de Gerald Thomas depois de anos de experiência na Ópera Seca) montamos com outros atores o espetáculo Sim e Não, que tratava de temas como a incomunicabilidade, a loucura, a alienação e a criatividade, dentro de um ambiente de realismo fantástico, mirando as obras de artistas como Bispo do Rosário, Van Gogh, Artaut, Nerval, Becket e Borges, entre outros. Nossas motivações buscavam fundamento na psicologia Junguiana e na física quântica onde as respostas são sempre Sim e Não. Uma das melhores apresentações desse show foi na abertura de um encontro latino americano de psicologia que houve em Porto Alegre, com debate dos participantes depois do espetáculo. Foi muito interessante escutar as diferentes interpretações que surgiram daquela platéia tão seleta. Ficou claro que entre Sim e Ñão pode haver muito mais do que um simples talvez. A partir daí comecei a colaborar com alguns psicólogos, ministrando work shops e atuando no movimento Sociedade Sem Manicômios.
Portanto, Sim e Não foi até hoje a minha experiência mais completa de "Obra Aberta".
Pra quem se interessar, há algumas imagens desse espetáculo nas páginas de fotos do site.
Voltando à sessão Obra Abierta, lá a conotação é também de acompanhamento, de deixar um trabalho aberto à visitação enquanto está sendo concebido e executado: um work in progress. É engraçado porque pensei primeiro em português, mas, quando a tradutora enviou a opção Open Work, não achei que soava tão bem como nas línguas latinas e me pareceu que em inglês não havia uma identificação tão direta desse termo com a "obra" de Eco, que é italiano. Open Work parece trabalhar mais com a idéia de sistemas, de computador, de open sistems, coisas assim. Por isso optei por colocar, na versão em inglês do site, a expressão work in progress que é realmente o que estamos fazendo, junto com a participação do público.
Como Anna Luna observou, essa sessão entrou no meu site no final do ano passado. E, respondendo à sua pergunta, não me surpreendi quando Caetano Veloso apresentou, esse ano, um projeto com o nome de Obra em Progresso, pois esse título é uma simples tradução para o português de work in progress, uma expressão utilizada para obras em andamento e que Caetano certamente deve conhecer e utilizar há muitos anos. Como já falei, essas idéias estão no ar e em total evidência nos dias de hoje, principalmente pra quem lida com internet e trabalha com música.
Quem reclamou que ainda não fiz upload de Ouro e Além do Paraíso tem toda razão. Até semana que vem devem estar no ar.
Em novembro vou retomar o show Além do Paraíso. Estaremos no dia 4 no Tom Jazz, em São Paulo, dia 12 no Mistura Fina no Rio e dia 19 no Opinião, em Porto Alegre. Em todos os casos tiraremos as mesas e deixaremos uma pista na frente do palco, como fizemos no Espaço laranja em setembro. O show é pra ouvir e dancar.
Mais informações na agenda do site.
Fiz uma pausa para assistir ao programa do Gabeira, que está muito bonito. O mais incrível foi ver o Oscar Niemeyer junto com ele e as palavras que disse o nosso mais importante arquiteto. Quem ainda está indeciso, fique atento aos programas e debates. Eu não tenho dúvidas, Gabeira é o cara mais preparado e com as melhores intenções pra mudar o Rio de Janeiro pra melhor! Bem melhor!!!!
Por hoje é só.
Vou escrever menos pra ver se volto a escrever mais a miúde.
Abraços e boa semana a todos
PS> A foto é do disco de Marisa Rotenberg
Em tempo:
O disco Devoragem de Bebeto Alves pode ser encontrado no Rio na loja Modern Sound: www.modernsound.com.br
O livro Noiva de Renato Rezende foi publicado pela editora Azougue: http://www.azougue.com.br/produto/89/